Caninos cariados

Vampiros são poderosos, não é?
Podem fazer o que quiser
de suas vidas desvividas

WERTHER

Comédia satírica em cena única sobre família de vampiros contemporâneos. Jovem humana namora o filho de Drácula, na intenção de convencê-lo a transformá-la em vampira. Mas, quando os pais do rapaz entram em cena, o que parecia fácil se revela como um desconcertante conflito político-familiar.

PERSONAGENS
Quatro (para 4 atores): Werther Drácula (filho do Conde e da Condessa Drácula); Nina Davis (namorada de Werther); Conde Vládmir Drácula e Condessa Clovanda Drácula.

LEIA UMA CENA DA PEÇA

Trecho inicial da peça

Blecaute. Ouvem-se gemidos de prazer na escuridão

NINA
Tezinho… Tezinho…

WERTHER
Hummm.

NINA
Faz agora.

WERTHER
O que?

NINA
Aquilo…

WERTHER
Sei fazer muitas coisas.

NINA
A melhor delas.

WERTHER
Qual?

NINA
Chupar. Você nasceu para isso, meu amor.

WERTHER
Nina…

NINA
É isso que eu quero… Me chupa.

Silêncio.

NINA
Estou esperando.

WERTHER
Melhor não.

NINA
Por que não?

WERTHER
Você sabe.

NINA
Bobagem. Chupa aqui, vai.

WERTHER
Nina…

NINA
Tão quentinho que está. Ponha a mão. Está até latejando. Aqui. Sinta.

WERTHER
Estou sentindo.

NINA
Então? Chupa. Estou cheirosa. Botei aquele perfume que você gosta. Pode chupar. Venha.

WERTHER
Desculpe… não vou fazer isso.

NINA
Werther…

WERTHER
Não vou fazer isso!

Aos poucos a luz toma conta da cena e revela um sofá onde estão sentados Nina e Werther, ela com o pescoço generosamente exposto à boca reticente do companheiro, na qual dois grandes dentes caninos se salientam.

SAIBA MAIS SOBRE “CANINOS CARIADOS

ORIGEM

“Caninos cariados” foi escrita em 1993 para substituir o drama de tons expressionistas “Nunc et in hora mortis nostrae” (do latim, “Agora e na hora de nossa morte”), uma das três histórias que compunham o espetáculo “Mito ou mentira?” (Saiba mais clicando aqui.). Escrito por Cello Mello, “Nunc et in hora…” funcionou bem no conceito da primeira montagem de “Mito…?”, que ficou em cartaz de 1989 a 1990, abordando como antigos mitos reverberavam as mudanças da própria humanidade. Sensual e com um clima onírico, a peça de Cello tinha um andamento ritualístico que antecipava um final trágico. Os ecos dessa abertura densa seriam dissolvidos gradualmente no segundo ato, comédia leve sobre uma versão humanizada da Morte, até culminar com uma sátira escrachada e iconoclasta sobre a política de Lúcifer no Inferno. Em 1993, o ator e diretor Carlos Salles deu início a uma nova montagem de “Mito…?”, porém mais interessado em ressaltar as possibilidades cômicas daquele trabalho. Salles ponderou que a marca sombria e elegante da trama da primeira peça destoava do humor debochado dos outros dois textos (“Visita mortal” e “Que seja inferno enquanto dure”. Saiba mais clicando aqui e aqui, respectivamente). Assim, pediu a Luiz Felipe Botelho que escrevesse uma peça para abrir o espetáculo no lugar de “Nunc et in hora…”.

Se em “Nunc et in hora…” o protagonista era um adolescente oprimido pela família e seduzido por três keres (vampiros arcaicos, personificações da morte na mitologia grega), em “Caninos cariados” Luiz Felipe Botelho preferiu criar uma história envolvendo a família do próprio Conde Drácula, personagem vampiresco já conhecido pela maioria das plateias. Botelho manteve como protagonista o jovem em conflito com a família, bem como o tema da sedução, subvertendo clichês sobre opressores e oprimidos, numa mistura de sátira e humor físico.

A peça estreou em 1994, na nova montagem de “Mito ou mentira?”, no Teatro Apolo (Recife – PE), com direção de Carlos Salles.

O texto desta peça está registrado na Biblioteca Nacional e na Sociedade Brasileira de Autores Teatrais (SBAT), sendo oferecido gratuitamente neste download apenas para uso privado sem fins lucrativos, neste formato e obtido através do site www.luizfelipebotelho.com.br
Todo e qualquer uso público, amador ou profissional, deverá contar antes com autorização expressa do autor. Contato através de: botelhudo@gmail.com

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