Visita mortal

Fico me perguntando o que mais
eu ignorei, o que mais eu deixei passar,
que era meu, que era simples e bom
e que simplesmente não percebi
que estava ao meu alcance.

LÍBERO

Drama cômico em cena única atualizando narrativas da literatura oral que abordam a suposta inevitabilidade da Morte e o consequente fim da vida material. Primeiro texto encenado de Luiz Felipe Botelho, “Visita mortal” foi criado para compor um dos três atos do espetáculo “Mito ou mentira?”, montado pelo Grupo Cênico Arteatro em 1989. Para maiores detalhes sobre “Mito ou mentira?”, clique aqui

RESUMO
Líbero estava com um mau pressentimento e não tardou a assustar a esposa Elvira com o nervosismo dele. A situação piorou ainda mais quando uma estranha figura bateu na porta do apartamento deles: era a Morte e deixou óbvio que estava ali para trabalhar. 

PERSONAGENS
Três (para 3 atores): Líbero, Elvira e a Morte.

LEIA UMA CENA DA PEÇA

VISITA MORTAL

Escuro total. Um tiquetaquear de relógio aumenta gradualmente de volume. No fundo do palco, suspenso, flutuando no espaço, um grande relógio circular, com fundo branco e ponteiros negros. Libero e Elvira estão em cantos opostos do palco, na penumbra. O tiquetaque permanece num tom baixo. Luz se intensifica nos dois personagens. Enquanto Elvira vive intensa sensação de felicidade, Libero tenta superar uma depressão.

ELVIRA
É tanto que quase não consigo suportar.

LÍBERO
É tanto que quase não consigo suportar.

ELVIRA
Faz tempo que não me sinto desse jeito. 

LÍBERO
Faz tempo que não me sinto desse jeito. 

ELVIRA
Tudo no seu devido lugar. 

LÍBERO
Nada se encaixa 

ELVIRA
É pena que não dure para sempre. 

LIBERO
Parece que não vai acabar nunca! 

ELVIRA
Estou quase explodindo de tanta felicidade! 

LÍBERO
Não aguento mais tanta pressão aqui dentro! 

ELVIRA E LIBERO
Tenho que dividir isso com alguém. 

ELVIRA
Líbero!

LÍBERO
Elvira!

O som do tiquetaque pára. Líbero e Elvira saem de onde estavam e vão até o centro do palco, diante do relógio, onde se abraçam. Elvira percebe o desconforto de Líbero.

ELVIRA
O que há com você?

LIBERO
Nada. Nada. 

ELVIRA
Eu te conheço. Conte. O que aconteceu? 

LIBERO
Bobagem. 

ELVIRA
Se fosse bobagem você não estaria assim.

Silêncio.

ELVIRA
Libero. Não guarde essa coisas só pra você. Eu estou aqui, do seu lado. Fale.

Ele acena que sim.

LIBERO
Eu… tenho medo de morrer.

ELVIRA
Acha que pode ser um ataque de pânico? Você tem tomado seu remédio?

LIBERO
Não é ataque de pânico. No começo até pensei que era, mas…

ELVIRA
(Acolhedora, sem pressa) Pode falar.

LÍBERO
O que eu estou sentindo agora… é diferente. Desde ontem que estou com um pressentimento, uma coisa esquisita… 

ELVIRA
Pressentimento, como?

LÍBERO
Sabe a sensação que se tem quando alguém está olhando para a nuca da gente e a gente se vira e vê que tinha mesmo uma pessoa olhando?

ELVIRA
Sim.

LÍBERO
Pois é semelhante a isso, mas muito mais forte.

ELVIRA
Como uma intuição.

LÍBERO
Isso. E a sensação é quase sufocante.

ELVIRA
Sensação de que?

LÍBERO
De que a Morte vai bater a qualquer momento naquela porta para me levar? 

Alguém bate à porta com firmeza.

SAIBA MAIS SOBRE “VISITA MORTAL”

Essencialmente, a fonte inspiradora de “Visita mortal” foram as narrativas orais que o pesquisador Luís da Câmara Cascudo denominou de Ciclo da Morte, no qual personagens se deparavam com a ceifadora e, após várias tentativas de se livrar dela, acabavam tendo que aceitar o “destino final”. Essas narrativas chamaram muito a atenção dos integrantes do Grupo Cênico Arteatro, pelo modo bem humorado como a cultura popular tratava de um tema inquietante como a finitude da vida material. Tanto foi que o grupo escolheu unanimemente essa temática para um dos textos teatrais do espetáculo “Mito ou Mentira?”. Ao se perguntar o que a contemporaneidade teria a acrescentar a essa temática, além de propor o personagem da Morte como funcionária de uma instituição celestial, o grupo considerou os avanços das ciências na compreensão das dinâmicas da vida, tanto em relação ao que acontece no interior do corpo físico quanto nas interações deste com o meio ambiente. Isso se explicita na conclusão da peça que (Aviso: se ainda não sabe e não quer saber como a peça termina, pare de ler aqui), ao invés de mais uma vez reafirmar o poder da Morte e da inevitabilidade do fim, introduz a possibilidade de que cada ser, no íntimo, é responsável pela própria existência e finitude. Assim, a sombria imagem da ceifadora com estrovenga pôde dar lugar à de uma criatura sensível e paciente, guardiã de uma instância de transição dentro de um insondável sistema de existências.

A versão integral desta peça
estará disponível aqui mesmo, a partir de 05 de outubro de 2026,
quando informaremos a(s) forma(s) de aquisição do texto.

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