Os três coroados

É justamente por estar com raiva
que eu não tenho paciência pra ficar
respondendo pergunta besta.

ORENE

Aventura cômica em um ato e vinte e sete cenas. Com trama cheia de reviravoltas, a peça é uma adaptação teatral de conto da literatura oral recolhido por Luiz da Câmara Cascudo.

Vítimas de um ardil familiar, os trigêmeos filhos de um rei são perseguidos e atacados de várias formas por parentes interessados nas riquezas do reino.

PERSONAGENS
Vinte e um (para 10 a 21 atores): As parcas Nonna, Dehcuma e Mohrta; as irmãs Orene, Oralda e Oraide; o Rei e seus três filhos gêmeos; as três solteironas sem nome e os três príncipes; a Árvore e o Rio; o Sol e a Mãe dele; o Guarda; os súditos do Rei e os nobres da corte.

LEIA UMA CENA DA PEÇA

Cena 2 – O Pedido Real

Nonna passa acompanhando o pescador, seu marido. Orene, Oralda e Oraide estão na sacada de sua casa, ansiosas.

PESCADOR
Olhupeixolhupeichh!… C’marão e garou-pa!… Olhupeixolhupeichh!… C’marão e garou-pa! 

ORAIDE
Ich! Lá vem! Ô coisinha para eu não gostar, a tal da catinga de peixe cru!

PESCADOR
(Parando sob a sacada) Olhupeixolhupeichh! … Vai querer, freguesa?

ORAIDE
(Tapando o nariz) Não! Pode ir-se embora. Aqui ninguém gosta de peixe, não.

ORENE
Eu gosto. 

ORAIDE
Pode ir, moço, eu já não disse? 

As três retomam a conversa entre si. O pescador retoma o caminho e o bordão. Nonna volta a acompanhá-lo. Pára antes de sair de cena, olha para a sacada, suspira e vai embora.

ORENE
Eu nunca vi o rei. 

ORALDA
Nem eu. 

ORAIDE
Dizem que é um homem feio, cabuloso e cheio de pantim

ORENE
Eu já ouvi outra história, que ele é um galego alto, elegante e bem educado.

ORAIDE
Falando nele, olhem quem vem lá! (Soltando gritinhos) Ai! Ai! Ai! 

ORALDA
(Dando um safanão na irmã) Oraide! Se aquiete! 

ORAIDE
Obrigada, Oralda. Perdi o senso. 

A comitiva do rei entra em cena.

ORENE
Como é bonito. 

ORALDA
Demais até. 

ORAIDE
Ai, se ele me notasse! 

ORALDA e ORENE
(Suspirando) Ai ai…

ORALDA
Se eu me casasse com o rei, fazia-lhe uma camisa tão bonita como nunca jamais ele viu. 

ORAIDE
Se eu me casasse com ele, eu lhe faria uma ceroula tão gostosa como ele jamais sentiu.

ORENE
Se o rei casar comigo, vou parir três coroados para ele. 

REI
Alto lá! 

O rei manda parar a comitiva e vai até as irmãs) 

REI
Parem imediatamente!

ORALDA
Eita! Ele ouviu!

ORAIDE
Ave Maria! 

ORENE
Ele está vindo! 

ORALDA
Está furioso! 

ORAIDE
Ai ai ai, ele vai mandar nos prender pelo atrevimento! 

ORENE
Ah, ele é tão lindo com raiva! 

ORALDA
Silêncio, Orene, não piore as coisas! 

REI
Ô de lá!

ORALDA
Que desejais, majestade?

REI
Pode me dizer qual das três donzelas disse que, se casasse comigo… 

ORAIDE
Eu não fui! Eu não disse (Leva um beliscão de Oralda) naaAAAI! 

ORALDA
Perdão, majestade, Ela é meio destrambelhada, a bichinha, ruim do juízo que só o senhor vendo. 

REI
(Para Oralda, com desdém) Isso não me interessa! (Para todos, explicativamente) Quero saber qual das três jovens afirmou que, se casar comigo, haverá de parir três coroados? 

ORALDA
(Em surdina) Calma, muita calma. Faz de conta que ninguém disse nada. 

REI
Então? Quem haverá de parir três coroados se casar comigo? 

ORALDA
Por que pergunta, majestade? 

REI
O que? Você ainda se atreve a fazer uma pergunta ao seu rei sem sequer responder o que ele perguntou? Sabe que há um castigo para isso? 

ORENE
(Cortante, luminosa, como se nem percebesse que Oralda estava falando) Eu sou a resposta à pergunta que fizeste, soberano. 

ORALDA E ORAIDE
Orene! Fique quieta! 

ORENE
Não posso, caras irmãs. É preciso que eu fale. (Ao Rei) Embora não seja da nobreza, de bom grado lhe daria três coroados, majestade, se me tomasses como esposa. Agora que tens vossa resposta, podeis castigar-me, se assim quiseres, mas, imploro, livrai minhas irmãs. 

REI
(Para Orene, ainda num tom firme) Então foi você, donzela? Qual é o seu nome? 

ORENE
Orene, majestade. 

O Rei faz uma reverência para Orene, inclinando-se. Orene faz o mesmo para o rei.

TODOS
Ooooooh! 

REI
(Num tom mais gentil) Não tema, donzela, não vou castigá-la. O que fiz foi apenas um teste para saber se terias a coragem de uma rainha para assumir seus próprios atos. E como arrebataste meu coração com tuas palavras e teu semblante, peço-te: casa-te comigo e dá-me a alegria de ser o pai dos três coroados que prometeste. 

ORALDA E ORAIDE
Oooooh! 

Orene vai até o rei. A comitiva sai. Orene e o Rei dão adeus. Oraide responde. Oralda está trêmula de raiva.

ORAIDE
(Para Oralda) Oxe, mulher, que é que tu tens? 

ORALDA
Sai, gota, sai! 

ORAIDE
Aiaiai, o que foi que eu fiz? 

OR,ALDA
Você existe! Somente! Você existe! 

ORAIDE
(Chora) Ai, não fica zangada comigo, não, mulher. Ô, diabo de irmã arengueira que Deus me deu. (Chegando-se à irmã) Faz isso c’migo não, Oralda!. 

ORALDA
(Empurra Oraide) Sai-te, cão! Dane-se prá lá! 

ORAIDE
(Num assomo histérico-infantil) Aiaiai,meudeusdocéu, numfalassimcomig’não. (Ajoelhando-se aos pés de Oralda) Vai, preta, desculpe a mana, vai. Ai, meu dengo. Ai, meu denguinho, vai. 

Oraide continua a choramingar, agarrada em Oralda.

ORALDA
Ave, Oraide, que latomia sem fim. (Forçando a calma) Está bem. Me perdõe. (Perdoa na fala, mas permanece com postura de inflexibilidade)

Oraide ainda choraminga.

ORALDA
(Gritando) Eu disse me perdõe! 

Oraide cala-se subitamente.

ORALDA
(Num tom muito mais calmo) É que eu sempre perco a calma quando vejo um sonho meu se desfazendo no horizonte. 

Oralda ajuda a irmã a se levantar.

ORAIDE
Agora, venha, chegue. Vamos lá para dentro pensar no que será de nós. O caritó eu até ainda posso suportar, agora, solteirona e pobre, as duas coisas juntas, isso não, isso jamais… 

Saem.

PEQUENO GLOSSÁRIO DE TERMOS REGIONAIS UTILIZADOS

CATINGA
Mal-cheiro, fedor.

CABULOSO
Irritante, aborrecido, antipático, desagradável.

PANTIM
Jogo de cena característico de cada brincador (artista popular que representa personagens nas praças ou em folguedos). No contexto da fala da peça, refere-se ao excesso de gestos para chamar a atenção para si.

GALEGO
Embora o termo se refira àquele que nasce na Galícia, no Nordeste do Brasil ainda é comum que seja usado para designar qualquer homem branco e de cabelos claros.

DESTRAMBELHADA
Desmantelada, desastrada.

GOTA
Designação popular para artrite hereditária, mas a intenção no uso dessa palavra na frase é simplesmente descarregar a raiva. Ainda hoje é comum nas áreas rurais do interior nordestino se utilizarem nomes de doenças graves para expressar irritação – e, as vezes, até mesmo carinho – em relação a outrem. Outros exemplos são: “bexiga lixa”, “bexiguenta(o)” (varíola); “danado(a)” (raiva canina); “peste”; e outros.

ARENGUEIRA
Briguenta. Que gosta de brigas, de “arengas”. Aquela que “arenga” ou gosta de “arengar”.

DANE-SE
Embora o sentido literal de “danar-se” signifique “ir para o inferno”, a intenção geral da expressão “dane-se” é comunicar a alguém algo como “afaste-se e sofra dano”. 

DENGO
Carinho, melindre, malemolência, birra, manha, faceirice.

LATOMIA
Lamentação, choradeira, queixume, conversa monótona e repetitiva.

CARITÓ
A condição dos solteirões.

SAIBA MAIS SOBRE “OS TRÊS COROADOS”

O texto foi criado como a primeira parte de uma trilogia proposta por Marcondes Lima e Carla Denise, dois dos integrantes da companhia Mão Molenga Teatro de Bonecos. Nesse projeto, que visava futuras montagens do Mão Molenga, Botelho se responsabilizaria pela adaptação teatral de três histórias, cada uma inspirada em uma obra da literatura oral e associada ao trabalho de uma das três parcas míticas. Não é por acaso que a primeira e a última cena d’ “Os três coroados” faça referência à partida e ao posterior retorno de uma delas ao encontro das irmãs. Neste caso, aquela que parte e retorna é a parca Nonna, após incorporar a forma humana da mãe adotiva dos três principezinhos.

Conforme acordo que Botelho fez com o grupo Mão Molenga, foi definido um prazo para evitar que o compromisso do dramaturgo em escrever mais duas adaptações não ficasse pendente por tempo indeterminado. Uma vez findo o prazo e constatada a impossibilidade disso acontecer a médio prazo (na época o Mão Molenga estava comprometido com a realização da série “500 anos”, da TV Escola do MEC em parceria com a Fundação Joaquim Nabuco), Botelho comunicou sua decisão de afastar-se do projeto da trilogia e divulgar o texto já concluído, de modo que a obra tivesse a oportunidade de ser montada em outros contextos.

A primeira montagem desta peça estreou em 04 de setembro de 1999, com direção do ator, diretor e Doutor em Teatro Érico José, na época professor da Oficina – Montagem Insight do SESC Santo Amaro (SESC – PE). Cumpriu curta temporada no então Teatro do SESC Santo Amaro, atual Teatro Marco Camarotti. Essa mesma montagem se apresentou na mostra “Todos Verão Teatro”, nos dias 08 e 09/01/2000, no Teatro Barreto Júnior, no Pina (Recife – PE).

Uma segunda montagem estreou em 2015, desta vez realizada pelo Coletivo Teatro Domínio Público (SESC Santo Amaro – PE), com direção do ator e arte-educador Rodrigo Cunha. Cumpriu curta temporada no Teatro Marco Camarotti e apresentou-se em várias cidades do interior pernambucano. Encerrou seu ciclo no “12.o Festival de Teatro para Crianças de Pernambuco”, no Teatro Luiz Mendonça, nos dias 11 e 12/07/2015.

A versão integral desta peça
estará disponível aqui mesmo, a partir de 05 de outubro de 2026,
quando informaremos a(s) forma(s) de aquisição do texto.

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