A janela de Keichi

Minha partida
não dissolveria incômodos,
apenas alimentaria a ilusão
de que eles deixaram de existir.

KEICHI

Drama sobre conflito de ideias e afetos.

RESUMO
Indignado com o discurso de rebeldia de um companheiro no pátio do mosteiro, um monge vai até o colega em busca de explicações.

PERSONAGENS
Kazuo e Keichi.

LEIA UM TRECHO DA PEÇA

Na cela de um mosteiro budista, Keichi está sentado, de costas para a porta, olhando para uma janela, quando Kazuo entra, irritado. Keichi nem se mexe. Inquieto, Kazuo senta-se num banquinho. Olha para Keichi, aguardando que ele faça algum movimento, que diga alguma coisa. Nada acontece. O tempo passa. Kazuo vai ficando cada vez mais ansioso, até que, sem conseguir se conter, começa a falar.

KAZUO
Falou tanto e agora fica assim, mudo.

Keichi permanece imóvel, contemplando o céu além da moldura da janela.

KAZUO
Gostou do resultado? Era o que queria? Provocou o mestre, decepcionou seus irmãos. Mereceu cada palavra dura que ouviu. Foi por isso que se calou? (Aguarda uma resposta que não vem) Calou-se por vergonha? (Aguarda mais um pouco e prossegue, irônico) Ou foi por arrogância? (Aguarda. Nenhuma reação. Muda o tom do discurso) Nem se desculpou. (Pausa. Outro tom) E fica aí, calado, como se o ofendido fosse você. Deve acreditar que teve razão em falar tudo o que falou. Acredita nisso, não é? Senão, por que este silêncio?

Keichi nada responde, não faz nenhum movimento. Kazuo se esforça para fazer uma abordagem mais amigável.

KAZUO
Todos sabemos que, até pouco tempo, você sempre participou dos ritos e acompanhou a evolução dos ensinamentos. Sempre esteve presente em tudo. De repente, aquela grosseria. Nunca ia imaginar. Logo você. Nada explica suas provocações, seu comportamento sem sentido. Devia ser honesto conosco. Devia abrir seu coração e falar o que realmente acontece com você. Para mim, pelo menos.

Silêncio.

KAZUO
(Enérgico) Por que não fala? Diga alguma coisa?

KEICHI
(Quase sussurando) Já falei tanto nestes anos todos, tanto…

KAZUO
Não fuja da resposta. 

KEICHI
Não estou fugindo.

KAZUO
Está: por que o silêncio?

KEICHI
Não vejo porque falar.

KAZUO
Quer me convencer de que não tem o que dizer? Logo você?

Silêncio.

KAZUO
Fale ao menos sobre o agora. Fale sobre o que vê no agora.

KEICHI
Mas não há nada que eu realmente deseje falar sobre o que vejo, seja no agora ou fora dele.

KAZUO
Quer falar sobre seus sentimentos? Fale, então. Fale sobre eles.

KEICHI
Meus sentimentos…

Keichi inspira profundamente.

KEICHI
O que sinto é como as imagens que alguém vê em num caleidoscópio. É uma experiência única que abrange tanto o que vejo quanto as emoções que isso desencadeia em mim. É inútil qualquer esforço que eu faça para colocar em palavras uma vivência como esta. Talvez, se você aceitasse que eu lhe oferecesse um poema, uma melodia sem letra. Seria mais fácil de responder o que você quer saber de mim.

KAZUO
Não faça isso. Não quero poemas nem músicas. Neste momento não quero nem emoções, nem expansão da mente nem mais perguntas sobre nada. Quero nitidez. Materialidade. Respostas diretas. 

Silêncio.

Gostou? Saiba como obter o texto completo clicando aqui.

SAIBA MAIS SOBRE “A JANELA DE KEICHI”

O texto foi escrito quando morei em Salvador, na época do mestrado. A ideia surgiu após uma discussão na troca de e-mails entre mim e o líder de um grupo de terapia do qual fiz parte por quinze anos. O grupo havia se desfeito formalmente alguns anos antes, mas havia laços de amizade que se mantiveram através da troca de e-mails compartilhados pelos remanescentes. Houve um mal entendido e eu respondi ao líder usando termos semelhantes ao que ele costumava usar. Ele exigiu retratação – o que nunca tinha acontecido na história do grupo – que aceitei fazer parcialmente. A maioria dos membros do grupo não gostou da minha atitude e entrou em conflito comigo. Acabei saindo da rede de e-mails e me afastando da maioria deles. O fato me desconcertou e, por alguns dias, deixou um persistente vazio no peito mesclado com forte indignação. O alivio veio na decisão de escrever a cena que se transformou neste esquete.

A versão integral desta peça
estará disponível aqui mesmo, a partir de 05 de outubro de 2026,
quando informaremos a(s) forma(s) de aquisição do texto.

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