Dos por quês e do não-pode-ser

É fantástica
essa coisa de “parecer”.
Parecer para não precisar
pagar o preço de ser.

ALGUÉM

Drama cômico em um ato sobre personagem paranormal.

Após receber um raio na cabeça, o personagem “Alguém” desenvolve uma série de poderes extra-sensoriais. A falta de domínio das novas habilidades cria vários problemas para o desventurado sensitivo, tornando-o alvo da polícia e de grupos radicais. Na tentativa de escapar dos algozes, “Alguém” decide se disfarçar, buscando refúgio em um teatro.

LEIA UMA CENA DA PEÇA

DOS POR QUÊS E DO NÃO-PODE-SER
Trecho inicial
Alguém está no proscênio, conversando com a plateia, num intervalo do trabalho dele como faxineiro do teatro.
ALGUÉM
Eu era uma pessoa normal, como a maioria de vocês. Normal, que eu falo, é aquela pessoa que faz tudo como todo mundo costuma fazer. Eu era assim, normal. E gostava de ser desse jeito. Até que um dia comecei a ter certas idéias. Não que eu procurasse isso. Essas idéias simplesmente vinham. No começo, tudo bem, porque não traziam novidades, mas daí a um tempo elas começaram a ficar muito estranhas, diferentes, surpreendentes até. E todas aquelas idéias tinham algo em comum. Pareciam mostrar que tudo o que eu via, o mundo, a vida, podia ser transformado por mim. Eu podia mudar o mundo. Podia mudá-lo para melhor ou para pior. Podia mudar tudo, sem exceções. Bastava sonhar e deixar acontecer. Era isso que passava pela minha cabeça. Tudo muito claro. Fascinante, não é? Mas tem um detalhe. Desde o começo, eu sempre recusava essas estranhas idéias. Recusava porque eram coisas fortes as que eu via. Tomavam minha atenção e atrapalhavam meus afazeres. Recusava porque aqueles pensamentos me assustavam, como se me propusessem novas formas de encarar a vida. De fato, pasmem vocês, tudo o que aquelas idéias sugeriam me parecia absurdamente real, mais coerente do que aquilo que no meu dia-a-dia as pessoas me apontavam como sendo a Verdade. Por isso quando minha cabeça começava a ver mais do que eu era capaz de compreender, eu tratava logo de me fazer a pergunta decisiva e salvadora, aquela que me exorcizaria de vez daquelas maluquices. (Pega um espelho, ainda falando para a platéia) A pergunta era mais ou menos assim: (Para o espelho) “Será possível que o mundo inteiro esteja errado e só eu esteja certo?”. (Para a platéia) E eu, prontamente, para mim mesmo: (Para o espelho) “Claro que não, claro que não, (inspira e expira com alívio, conclusivo) claro que não”.

SAIBA MAIS SOBRE “DOS POR QUÊS E DO NÃO-PODE-SER (1991)”

ORIGEM
A ideia dessa peça também nasceu de um sonho bastante realista em que eu descia a rua Santos Dumont (Recife – PE) de bicicleta. Era um dia de céu cinzento e as ruas estavam desertas, como se as pessoas estivessem abrigadas de alguma coisa. Eu sentia o vento no rosto e a sensação boa de pedalar sem receios, até que percebo um clarão sobre a minha cabeça. Tudo ficou branco. Sabia que havia sido atingido por um raio. Acordei desorientado e aliviado ao me dar conta de que tinha sido um sonho. Achei o mote muito bacana, como se fosse o ponto de partida de uma narrativa de histórias em quadrinhos. E assim foi.
PRIMEIRAS APRESENTAÇÕES
Essa peça estreou em 18 de novembro de 1992, no Teatro Ruy Limeira Rosal (Caruaru – PE), como segundo ato do espetáculo “SelfTrap” (armadilha de si mesmo), dirigido por mim e produzido pelo Grupo Cênico Arteatro e TTTRês Produções Artísticas (outras apresentações de “SelfTrap”: Garanhuns, Arcoverde, Recife (20 de março a 06 de junho de 1993) e João Pessoa, no III Festival Nacional de Teatro e Dança (22/01/1993). Da primeira à última apresentação desse espetáculo, o personagem Alguém foi interpretado pela atriz Francis de Souza, a mesma que também protagonizou a peça “Lembrem-se de Lilith!” em todas as temporadas deste trabalho.
O PÉRIPLO DE RENAN MATTEI
Em 2007 “Dos porquês e do não-pode-ser” foi objeto de um trabalho do ator Renan Mattei, na disciplina “Estágio de Atuação I” do Projeto de Extensão em Artes Cênicas do Departamento de Arte Dramática da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (TPE – UFRGS). Mattei tomou conhecimento do texto através do Professor Clóvis Massa, integrante da Banca de Defesa que avaliou minha dissertação de Mestrado na Bahia naquele mesmo ano. Concluídas as apresentações no curso, Renan viu no monólogo possibilidades de continuar se apresentando como um exercício dinâmico e desafiador com foco no trabalho de interpretação, já que o trabalho não exigia uma estrutura cênica especial nem grandes recursos técnicos complementares. Assim, iniciou um verdadeiro périplo que durou até 2022, fazendo récitas em várias cidades, sempre em espaços urbanos de grande circulação de pessoas, como praças, calçadas, escadarias e outros espaços abertos.

O texto desta peça está registrado na Biblioteca Nacional e na Sociedade Brasileira de Autores Teatrais (SBAT), sendo oferecido gratuitamente neste download apenas para uso privado sem fins lucrativos, neste formato e obtido através do site www.luizfelipebotelho.com.br
Todo e qualquer uso público, amador ou profissional, deverá contar antes com autorização expressa do autor. Contato através de: botelhudo@gmail.com

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