Brabeza nata

Vovó garantiu que eu vivesse, porque
mamãe não queria mesmo ter um filho.
No máximo queria uma filha.

JOSÉ MATEUS

Drama em cena única sobre o amadurecimento de um homem em condições sociais extremas no interior do Brasil.

Num vilarejo distante, José Mateus relembra eventos da própria infância: o afeto da avó e a violência da mãe, que o odiava por ter nascido homem. Do ambiente árido e de extrema pobreza a uma maturidade na qual acolhe tudo o que viveu, o personagem contempla a amplidão da experiência humana.

LEIA UMA CENA DA PEÇA

BRABEZA NATA
Trecho inicial

JOSÉ MATEUS
Nasci na periferia do interior do interior, um lugar tão distante e pobre que nem nome tinha. Eu era igual a minha terra. Distante, pobre e sem nome. Na minha família ninguém ligava para isso de ter um nome. Na verdade, ligavam para muito pouca coisa, além de sobreviver. Meu avô morreu cedo. O caminhão da feira capotou com os feirantes, deixando minha avó viúva, sem a perna esquerda e com uma filha de 12 anos. A menina um dia seria minha mãe. Saiu inteira do acidente, mas teria que trabalhar dobrado para se sustentar com minha avó. E daí? Nem se avexou. Desde pirralha mainha sempre foi muito danada. Era braba e muito bonita. O primeiro trabalho dela fora de casa foi plantar mandioca e trabalhar no fabrico de farinha. Na plantação deu-se bem, mas quando chegava no fabrico arengava com todo mundo, dizendo que só ela sabia fazer as coisas direito. Se era verdade ou não, o resultado foi que mandaram ela embora. Depois passou uns tempos como piniqueira de um fazendeiro, até que o homem descobriu que ela vivia dia e noite sarrando com a patroa. Botou mamãe pra fora e fez ameaça de morte, caso ela aparecesse por ali outra vez. O tal nem tinha direito de se sentir injuriado, pois foi ele mesmo quem deu cabimento a essa trepação quando chamou mainha para deitar com a esposa dele, os três na mesma cama, isso desde o primeiro dia em que mamãe foi trabalhar na fazenda dele. Ele acabou se lascando nessa brincadeira, porque mainha e a mulher dele se deram conta de que gostavam muito mais de ficar com mulher do que com homem.

SAIBA MAIS SOBRE “BRABEZA NATA”

Este monólogo é adaptação para teatro dos primeiros capítulos de um texto literário ainda não concluído.
A primeira montagem de “Brabeza nata” estreou em 15 de junho de 2020, durante o lockdown da pandemia do Covid-19, com interpretação de Alexandre Sampaio e direção de Cláudio Lira. O trabalho integrou a versão digital do “Projeto Teatro de Quinta”, conjunto de obras teatrais transmitidas ao vivo através do Instagram. Até antes da pandemia, o “Teatro de Quinta” acontecia presencialmente, sempre às quintas-feiras, no “Espaço Cultural Casa Maravilhas”. Importante palco alternativo recifense, a continuidade das ações da “Casa Maravilhas” também foi comprometida pelas contingências da pandemia, o que culminou com a decisão da administração do espaço a encerrar as atividades do local em outubro daquele mesmo ano.

A versão integral desta peça
estará disponível aqui mesmo, a partir de 05 de outubro de 2026,
quando informaremos a(s) forma(s) de aquisição do texto.

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