Fragmentos lúdicos – Apresentação

“Fragmentos Lúdicos” são textos de uma série iniciada em janeiro de 2026. Frutos de um modo de escrever disponível para um brincar criativo, cada fragmento é desenvolvido a partir de ideias que surgem no cotidiano, registradas em agendas, celulares e até guardanapos de papel.

“Fragmentos lúdicos” materializam ideias brutas, sem qualquer outra obrigação a não ser a de aceitar possibilidades de invenção de histórias e permitir que elas se tornem visíveis como texto e ação. Compõem, em essência, um experimento pessoal que será aberto ao olhar do público, uma viagem sem compromisso com nada, a não ser expor instantes do que surge no fluxo da vontade de se divertir escrevendo textos.

Porém, as raízes deste trabalho são bem mais antigas, um livro que adquiri em 1977, chamado “Redação Escolar – Criatividade” (6.a Ed., São Paulo, Editora Saraiva, 1976). Era uma obra que chamava a atenção por suas páginas de cores variadas, alternando espaços vazios com textos que mais pareciam uma conversa com um amigo querido, alguém próximo convocando o leitor a brincar de criar. Aquele livro me desafiou a levar a sério algo que eu amava fazer e que sempre me foi colocado como secundário e sem valor. Ele me convidava a libertar minha imaginação e colocar histórias e ideias em palavras. O nome do autor era Samir Curi Meserani. 

A impressão era de que o professor Samir me conhecia e sabia exatamente como curar os tantos receios que viraram feridas, desde que comecei usar a escrita para inventar histórias. No ambiente acolhedor das páginas daquele livro, me lancei a fazer cada exercício proposto. Ali não havia ninguém maximizando defeitos de quem mal começou a vida e nem julgando e condenando invenções que acabaram de nascer. Num dado momento, ficou nítido para mim que o livro não iluminava apenas os caminhos da escrita, mas demonstrava que tipo de atitude poderia favorecer a força da própria expressão artística no ser humano. De fato, o único compromisso que o livro me propunha, sem que isso estivesse escrito como uma ordem, era me entregar, consciente e incondicionalmente, à realização de cada atividade, do jeito que fosse possível ou impossível e, principalmente, me divertir com isso. Eu tinha 17 anos. Depois do contato com aquela obra, nunca mais vi a criação artística da mesma maneira. 

Décadas adiante, em 2002, ao reencontrar aquele livro na minha estante, tive um vislumbre completo dos muitos caminhos que trilhei até aquele instante. Só ali me dei conta da importância que o trabalho de Samir Curi Meserani teve na formação da minha base profissional. Sem precisar saber que eu existia, preparou-me para lidar com momentos nem sempre simples na minha trajetória profissional. Naquele momento tive muita vontade de conhecer aquele que foi meu inadvertido mestre e agradecer-lhe pessoalmente. Infelizmente, descobri que ele falecera três anos antes, em 1999.

Procurando na internet, soube que Samir Curi Meserani nasceu na cidade paulista de Botucatu no dia 1 de agosto de 1936. Era formado em Direito pela Universidade de São Paulo e foi Professor do Departamento de Artes da Faculdade de Comunicação e Filosofia da Pontifícia Universidade Católica (PUC-SP) durante 20 anos. Mestre em comunicação e semiótica e Doutor em educação, além de livros como “Criatividade”, voltados para o estímulo à expressão escrita, foi o organizador da série “Quem Conta um Conto” (1991) e autor de obras para a infância e juventude como “Os Incríveis Seres Fantásticos” (1993).

Assim, perpassados também pela lições generosas do professor Samir, trabalhos como estes “Fragmentos Lúdicos” me ajudam a manter a mente aberta para o novo, o inesperado, ao mesmo tempo que exercita o distensionamento do corpo, geralmente sobrecarregado de preocupações quanto ao desempenho e à qualidade dos resultados das ações diárias. Criar num fluxo, com um máximo de leveza e um mínimo de julgamento, ajuda a ampliar a visão que temos de nós mesmos e do mundo. Quanto aos textos criados, são obras que sempre poderão ser revistas e ajustadas, em tantas versões quanto quisermos, ainda que posteriormente notemos falhas ou aspectos nossos que precisam ser melhor compreendidos.

Enfim, tenho certeza de que professor Samir Curi Meserani iluminou muitos caminhos de minha vida e de outras tantas e tantas pessoas, na escrita, na arte e muito além delas. Espero que minha gratidão o alcance, onde ele estiver.

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