Todas as noites nos veremos no jantar.
FERA
Sei o quanto a minha presença
lhe desagrada,
mas assim terá que ser.
Adaptação para o teatro do conto de Jeanne-Marie Leprince de Beaumont (França, 1711-1780).
RESUMO:
Para pagar pelo roubo de uma rosa, Bela toma o lugar do pai como prisioneira no castelo de um homem-fera. Entre o medo e o fascínio pelo estranho algoz, aos poucos Bela começa a descobrir os segredos daquela criatura e do lugar onde ela vive.
PERSONAGENS:
Sete (para 7 atores): A Fera; Raphael D’Avignon (o pai); Belle, Camille e Sophie (filhas de Raphael); Cézanne e Laurent (pretendentes das irmãs de Belle).
LEIA UMA CENA DA PEÇA
Cena VI – O Delito
Monsieur Raphael entra no castelo. Os candelabros acendem-se sozinhos e mãos invisíveis poem a mesa para ele. O homem janta e adormece. No dia seguinte, acorda e sai do castelo. Vê muitas rosas no jardim e decide colher uma delas. Sopra uma repentina e forte ventania. A Fera aparece.
FERA
Minha hospitalidade não foi o suficiente?
Raphael fica paralisado de medo.
FERA
Ofereci-lhe o que tinha de melhor e monsieur resolveu agradecer mutilando minhas roseiras. A ingratidão não me ofende mais do que o sofrimento das minhas plantas. A dor destas flores é a minha dor e a penalidade não pode ser outro a não ser a morte.
RAPHAEL
Meu senhor, perdõe-me, eu não sabia…
FERA
Não me chame de “meu senhor”. Sou apenas Fera. Exijo que me tratem por este nome.
RAPHAEL
Procure compreender, senh… Fera, eu só queria atender a um pedido de alguém a quem prezo muito.
FERA
Isso não reduz sua culpa. (Pegando um relógio de algibeira) Dou-lhe três minutos para rezar ou para pensar no valor que teve sua vida até agora. Aproveite esses instantes. O pena será aplicada por mim, em seguida.
RAPHAEL
Meu senhor, não me…
FERA
Fera! Fera!
RAPHAEL
Fera… eu lhe peço, por favor, permita-me realizar um último desejo…
FERA
(Erguendo uma das garras) Não permitirei mais nada que…
RAPHAEL
(Cortante) Não posso morrer sem anter ver minhas filhas.
FERA
Filhas?
RAPHAEL
Elas são tudo o que me resta de bom.
FERA
A rosa era para uma de suas filhas?
RAPHAEL
Deixe-me ir. Juro que voltarei em seguida. Tem minha palavra.
FERA
Sua palavra não tem valor para mim. Mas farei o que me pede. Terá três meses para despedir-se de seus familiares. É tempo bastante, para quem estava às portas da morte. No final do prazo, um cavalo branco irá até sua casa para apanhá-lo e trazê-lo até mim. A não ser que…
RAPHAEL
O que?
FERA
Que uma de suas filhas o ame tanto que aceite ficar comigo para sempre em troca de sua vida.
RAPHAEL
Jamais permitirei tal coisa.
FERA
Está em suas mãos. E não pense em fugir ou em esquecer a promessa. Tenho meios de localizá-lo onde quer que esteja. Agora vá.
Raphael estende a rosa para devolvê-la à Fera.
FERA
Pode levar. Afinal, você está pagando por ela.
A Fera dá as costas e sai.
RAPHAEL
Como sairei desta floresta?
FERA
Sairá. Interessa-me que assim seja. Cuidarei para que saia… assim como farei para que retorne.
SAIBA MAIS SOBRE “A BELA E A FERA”
A peça foi escrita a partir de proposta do produtor Pedro Portugal, motivado pela popularidade do desenho animado da Disney (Beauty and the Beast, 1991, E.U.A.). Botelho aceitou o projeto, com a condição de ter liberdade para criar um texto baseando-se no conto original de Jeanne-Marie Leprince de Beaumont e suas variações históricas, como o filme homônimo de Jean Cocteau (La Belle et la Bête, 1946, França).
A primeira montagem desse texto estreou em 10 de julho de 1993 no Teatro Apolo (Recife – PE), numa realização da Portugal Produções com direção do próprio Luiz Felipe Botelho. Cumpriu duas temporadas regulares (julho/setembro 1993 no Teatro Apolo e março/maio 1994 no Teatro Barreto Júnior), com sessões aos sábados e domingos, além de apresentações extras durante a semana, para escolas e empresas. Recebeu críticas favoráveis e foi a terceira maior bilheteria dentre as peças em cartaz no Recife em 1994. Essa montagem ainda realizou turnê pela região Norte (setembro/outubro 1994), tendo se apresentado em Macapá, Manaus, Belém e Teresina.
Elenco: Alberto Brigadeiro (Fera), Janine Aroucha (Belle), Lellu Silveira (Camille), Cybelle Jácome (Sophie), Chico Domingues (Cézanne), Paulo Henrique (Laurent), Luiz César (Raphael), com André de França e Rivalcléia Santos como alternantes.
Texto, sonoplastia, cenografia e direção: Luiz Felipe Botelho; figurinos, máscara da Fera e adereços: Marcondes Lima; plano e execução de luz: Alexandre Veloso; camareiro e contrarregra: Fábio Muniz; cenotécnicos: irmãos Marcos, Marcelo, Martiniano e Mário Almeida; costureiras: Zuleide Dornelas e Marina Araújo; maquinaria: Genildo Martins e Mário Almeida; operador de som: Marcos Almeida; produção artística: Pedro Portugal; produção executiva: Antônio Bernardi; realização: Portugal Produções.
O texto desta peça está registrado na Biblioteca Nacional e na Sociedade Brasileira de Autores Teatrais (SBAT), sendo oferecido gratuitamente neste download apenas para uso privado sem fins lucrativos, neste formato e obtido através do site www.luizfelipebotelho.com.br
Todo e qualquer uso público, amador ou profissional, deverá contar antes com autorização expressa do autor. Contato através de: botelhudo@gmail.com
