O sertão não é um mandacaru.
Essa imagem é um estereótipo
irritante. Não tem nada a ver
com o que eu penso do sertão.ALTAIR
Drama poético em 19 cenas, escrito em parceria com o dramaturgo, ator e diretor Djaelton Quirino (Arcoverde – PE).
Dois amigos decidem criar uma obra conjunta que aborde supostas distinções cotidianas entre o sertão e o litoral, desde as geográficas até as culturais e sensoriais. O que não imaginam é que a natureza dessas e de outras distinções será colocada em xeque, especialmente em se tratando de tempo, espaço, memória e sentimento.
PERSONAGENS
Altair / Altair Adulto; Ariel / Ariel Adulto; Altair Criança; Ariel Criança; Altair Adolescente; Ariel Adolescente; Ciano; Mariá; Guilherme.
LEIA UMA CENA DA PEÇA
Cena III – A primeira imagem
Altair e Ariel estão adolescentes. Conversam do meio da plateia e a incluem na conversa.
ALTAIR
(Para a plateia) Uma vez Ariel apareceu de repente e me perguntou: “Depressa, responda sem pensar, qual a primeira imagem que vem na sua mente quando eu falo a palavra ‘Sertão’?”
ARIEL
(Falando rápido, para Altair) Qual a primeira imagem que vem na sua mente quando eu falo a palavra ‘Sertão’?
ALTAIR
(Atônito) Éééé…
ARIEL
“É” o quê? Vai logo, está demorando muito pra responder.
ALTAIR
(Interagindo com Ariel) Estou pensando.
ARIEL
Não é pra pensar.
ALTAIR
An… Sei lá. Arcoverde. Pajeú.
ARIEL
Não. Uma imagem. Fala, Altair, qual foi a primeira imagem que você viu?
ALTAIR
Um mandacaru!
ARIEL
Olha aí. Saiu.
ALTAIR
É, saiu, mas eu discordo do que eu vi.
ARIEL
Discorda como?
ALTAIR
Sertão não é um mandacaru. Essa imagem é um estereótipo irritante. Não tem nada a ver com o que eu penso do sertão.
ARIEL
Mas era o que estava aí dentro, no automático. A ideia dessa brincadeira é surpreender o pensamento da pessoa e flagrar o jeito como ele funciona. Faz parte do jogo gostar ou não gostar do que a gente descobre.
ALTAIR
A ideia é massa, mas não gostei de brincar. Estou com raiva por ver o quanto meu cérebro foi influenciado por uma visão estereotipada. Eu conheço o sertão, Ariel. Podia ter falado “o raso da Catarina”, o Rio Pajeú, o Vale do Catimbau. Mas só pensei num mandacaru. Nada contra mandacarus, mas é um cacto espinhoso numa terra seca. Sertão é muito mais.
ARIEL
O que eu gosto nessa essa brincadeira é que ela ajuda a tomar consciência dessa mecânica e, aí, a gente pode…
ALTAIR
(Interrompendo Ariel, rápida e repentinamente) Responda depressa, sem pensar: qual a primeira imagem que vem na sua cabeça quando eu digo a palavra ‘Mar’?”
ARIEL
(Surpreso) Oi? Qual palavra?
ALTAIR
Mar, eme-á-erre, mar! Vai, Ariel, não enrola, não pensa, apenas diz o que você está vendo.
Ariel fica sem palavras.
ARIEL
Éééé…
ALTAIR
Ééé, nada. Já vi que também não gostou da primeira imagem.
ARIEL
Foi.
ALTAIR
E o que você viu?
ARIEL
(Para a plateia) Uma praia e um paredão de edifícios enormes na beira do mar.
SAIBA MAIS SOBRE “A ESTRADA DE UM POR DENTRO DO OUTRO”
ORIGEM
A peça “A estrada de um por dentro do outro” nasceu do projeto “O mar e o sertão, virá” (2021), proposto pela atriz e produtora Caroline Arcoverde. Este projeto, por sua vez, materializou a ideia de realizar um trabalho conjunto entre os dramaturgos Djaelton Quirino e Luiz Felipe Botelho, este um velho amigo do grupo Teatro de Retalhos (Arcoverde – PE), do qual Caroline e Djaelton fazem parte.
O ponto de partida desse projeto foi a realização de um intercâmbio entre os dois dramaturgos – um do sertão e outro do litoral – a partir do qual cada um teve a oportunidade de acessar presencialmente um pouco das múltiplas camadas da realidade do outro, desde a geografia e a cultura, até as relações com o cotidiano e as memórias pessoais. O resultado dessas vivências foi utilizado como matéria prima em um processo de criação dramatúrgica à quatro mãos, que resultou no texto da peça mencionada acima. Assessorando esse processo estiveram a própria Caroline Arcoverde e a atriz e arte-educadora Mônica Silva. Também fizeram parte do projeto a criação de um site (https://www.omareosertaovira.com.br/) e a realização de leituras dramatizadas do texto concluído, nas cidades de Arcoverde e Recife.
O site descreve os vários passos do processo de criação da peça, reunindo todo o material que foi produzido e compartilhado entre os autores. Lá também pode ser acessada uma versão digital integral do texto da peça.
As leituras dramatizadas foram dirigidas por Djaelton Quirino, com elenco do Teatro de Retalhos e convidados, com apresentação única na Estação da Cultura (Arcoverde – PE) em 30 de agosto de 2024, às 19h e no Teatro Marco Camarotti (Recife – PE) no dia 1 de setembro de 2024, às 15h.
A versão integral desta peça
estará disponível aqui mesmo, a partir de 05 de outubro de 2026,
quando informaremos a(s) forma(s) de aquisição do texto.
