Mau mau miau

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FLÉCSIS

Também conhecida pelo sub-título “Estranhos eventos na Casa dos Tempos”, “Mau mau miau” é uma aventura dramática em um ato, com quatro cenas e um epílogo, sobre o confronto entre o que foi e o que está por vir.

RESUMO
Após mil anos como guardiões do dia e da noite, dois orimandins aguardam a chegada de seus substitutos para, enfim, poderem descansar. Porém, algo altera essa dinâmica, desorientando os orimandins e pondo todo o Universo em perigo.

PERSONAGENS
Quatro (para 4 atores): Flécsis, criatura de aspecto felino; Ofilim, o recém-chegado; Ocatutis e Olinez, orimandins da noite de do dia, respectivamente.

LEIA UMA CENA DA PEÇA

Cena I

Interior da morada dos orimandins, situada nas fronteiras do tempo e do espaço. Flécsis, uma criatura de aspecto felino, meio humana e meio animal, dorme pesadamente no centro da cena. Alguém está do lado de fora, batendo à porta. De formato irregular e decorada com signos desconhecidos, a estranha porta não tem aldravas, ferrolhos, fechadura ou sequer maçaneta.

OFILIM
(Continuando a bater à porta) Tem alguém aí? 

Flécsis acorda. Pausa, novas batidas.

OFILIM
Posso entrar? Hem? 

Flécsis fica intrigado. Cheira o ar.

FLÉCSIS
(Consigo mesmo) Não pode ser. 

Mais batidas na porta.

OFILIM
Alguém, responda.

Rapidamente Flécsis aproxima-se da porta e dá uma cheirada longa e profunda, tentando certificar-se quanto a quem está do outro lado.

FLÉCSIS
(Como que constatando algo surpreendente, Flécsis dá uma salto e corre para longe da porta, num misto de receio e encantamento) É, sim. Chegou a hora. Chegou a hora.

OFILIM
Ei, tem alguém aí? Por favor, está muito frio aqui fora. Eu quero entrar.

A porta abre sozinha. Ofilim não vê ninguém.

OFILIM
(Surpreso) Ora, quem abriu a porta?

FLÉCSIS
(Aproximando-se devagar) Seu desejo. Você disse que queria entrar e aí a porta se abriu.

OFILIM
Bastou eu dizer o que eu queria e só?

FLÉCSIS
(Rodeando Ofilim, às pressas, examinando cada detalhe) Só. Mas nem tudo aqui é assim, ouviu? Certas coisas ainda têm que ser feitas com as mãos. Cadê o outro? Cadê o outro?

OFILIM
Que outro?

FLÉCSIS
O outro da sua espécie. Orimandins nascem de dois em dois e chegam aqui sempre aos pares, você não sabia?

OFILIM
Não.

FLÉCSIS
Pois devia saber. Faz parte da natureza de sua espécie. (Para si) Será possível? Só um? (Para Ofilim) Tem certeza de que está só?

OFILIM
Claro que tenho. E qual seria o problema se um orimandim aparecesse sozinho por aqui? 

FLÉCSIS
Ai, não quero nem pensar muito nisso, agora.

OFILIM
Não estou entendendo tanta agitação.

FLÉCSIS
Ah, mas vai entender. Por isso precisamos fazer tudo bem depressa. (Para si, apreensivo, mas excitado com a situação) Ai, que parece que tudo vai acontecer com mais força do que eu imaginava.

OFILIM
Do que você está falando?

FLÉCSIS
(Agarra Ofilim por uma das mãos) Não se preocupe com nada agora. Venha, que não temos muito tempo. (Noutro tom, para si) Ou talvez até tenhamos algum tempo, sim. Mas é melhor não arriscar perder esta oportunidade.

OFILIM
(Soltando-se de Flécsis) Espere! O que você vai fazer comigo? Eu só queria entrar para me aquecer.

FLÉCSIS
Tem certeza que só entrou para isso?

OFILIM
Sim. Tenho.

FLÉCSIS
Meeeesmo?

Flécsis olha bem nos olhos de Ofilim que se confunde e, como num reflexo, espalma a mão sobre o próprio peito, hesitando em responder.

OFILIM
É… quer dizer… não sei.

FLÉCSIS
O que você estava fazendo andando por aí, sozinho, nesse frio?

OFILIM
Eu estava indo.

FLÉCSIS
Para onde?

OFILIM
Não sei. Eu estava seguindo algo.

FLÉCSIS
Algo? Seguindo o que? Seguindo quem? Você não estava sozinho?

OFILIM
Seguindo algo que vem daqui (bate no peito com a mão que lá ainda permanecia, espalmada), me puxando, me levando adiante, mas eu não ainda não sei bem onde vou chegar.

FLÉCSIS
Ótimo. Agora já sabe. Chegou. O lugar que você estava procurando era este aqui. (Puxa Ofilim novamente pela mão) Venha comigo.

OFILIM
Me solte! Eu estou com medo. Eu nem sei o seu nome.

FLÉCSIS
O meu nome é Flécsis e o seu é Ofilim. 

Estende a mão e rapidamente cumprimenta Ofilim.

FLÉCSIS
Prazer. Agora vamos.

OFILIM
(Interrompendo) Espere! Como sabe meu nome?

FLÉCSIS
Sabendo.

OFILIM
Sabendo, como? 

FLÉCSIS
Sabendo, sabendo.

OFILIM
Você percebe que essa resposta não explica nada?

FLÉCSIS
Percebo, mas as vezes a gente não sabe como responder de outro modo. Além do que você vai ter todas as explicações que precisa se vier comigo agora. (Puxando Ofilim)

OFILIM
Pára com isso. Que agonia! Eu não vou sair daqui se você não me explicar o que está acontecendo.

Pausa climática.

FLÉCSIS
(Caindo em si, noutro tom) Você tem razão. (Olhando em volta) Não pode ser assim. O orimandim  não pode ser levado. A escolha tem que ser dele. Mas, e o tempo?

OFILIM
Você se preocupa demais com o tempo.

Ouve-se um ronco pavoroso vindo de algum lugar no fundo da cena. Uma criatura que até então não era notada move-se em seu pesado sono.

OFILIM
O que foi isso?

FLÉCSIS
É Ocatutis, que está prestes a acordar. É por isso que eu tenho pressa.

Flécsis sai correndo. Ofilim o observa, sem ter a mínima ideia do que está ocorrendo..

SAIBA MAIS SOBRE “MAU MAU MIAU” ou “ESTRANHOS EVENTOS NA CASA DOS TEMPOS”

Segundo Botelho, a ideia e o título dessa peça surgiram a partir de um sonho que ele teve, no qual um filhote de gato se escondia sob os móveis de uma casa. O animalzinho estava bravo, assustado, fazendo todos aqueles ruídos que os felino fazem quando se sentem ameaçados. Quando Botelho tentou pegar o gatinho, um homem apareceu alertando que aquela espécie era peçonhenta, como muitas serpentes. O dramaturgo olhou para o gatinho venenoso, encurralado no canto de uma parede, pelos eriçados, miando alto, bufando e exibindo os dentes. Com voz mansa, Botelho começou a conversar com o pequenino como que falando com uma criança humana, ponderando delicadamente sobre aquela reação agressiva: ‘Mau, mau, miau. Mau, mau…’. Aquela cena do sonho ficou ecoando por vários dias na mente do dramaturgo, misturando-se com discussões sobre os primeiros anos do terceiro milênio e sobre as dificuldades da humanidade em lidar com mudanças, mesmo as que buscavam uma atitude concreta de valorização da vida no planeta. Assim, o gato do sonho foi relido por Botelho como uma imagem do próprio milênio que se iniciava, , desdobrando-se nos personagens de Ofilim e Flécsis, o primeiro, um filhote recém-chegado, inocente e assustado, o segundo, uma criatura imortal eternamente jovem, ferida por séculos de aprisionamento.

Em 2003 “Mau mau miau” foi premiada em terceiro lugar no Prêmio Funarte de Dramaturgia – Região Nordeste. No mesmo ano foi publicada pela própria Funarte, junto com os demais vencedores dessa premiação.

Em 29 de junho de 2015 foi realizada leitura dramatizada desta obra pelo Grupo Incantare, com direção de Ana Flávia. A apresentação aconteceu no espaço da Cia. Cênicas de Repertório, que também fez a produção da leitura, dentro do “Projeto Segunda com Teatro de Primeira”.

O subtítulo da peça foi criado a partir de um comentário da atriz pernambucana Prazeres Barbosa. Profissional e educadora experiente, ela comentou com Botelho que o título da peça não lhe agradava. Explicou que, além do apelo frágil e confuso, não deixava nítido para o público o que aquelas palavras tinham a ver com o que acontece na história. Embora concordasse com os argumentos da atriz, Botelho relutou em alterar o título por questões afetivas. Posteriormente encontrou a saída ao decidir acrescentar o atual subtítulo – tarefa que, não por acaso, levou muito tempo para se concretizar pois

A versão integral desta peça
estará disponível aqui mesmo, a partir de 05 de outubro de 2026,
quando informaremos a(s) forma(s) de aquisição do texto.

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