Os sacos vermelhos

Quando os fortes amam,
eles podem levar o saco
do outro consigo.

12.345

Comédia dramática e absurda em um ato e cena única

RESUMO
12.345 e 54.321 eram pessoas solitárias vagando pelo mundo, arrastando seus grandes sacos vermelhos. Um dia se encontraram e se reconheceram como almas gêmeas. Que felicidade! E permaneceriam felizes se não fossem aqueles enormes sacos vermelhos e o que eles levavam ali dentro…

PERSONAGENS:
Dois (para 2 atores): 12.345 e 54.321.

LEIA UMA CENA DA PEÇA

Trecho inicial da peça

Observação introdutória:

No universo em que se passa esta peça, as pessoas se habituaram a se relacionar através dos grandes e misteriosos sacos que levam às costas. Em decorrência disso, 12.345 e 54.321 – únicos personagens dessa realidade que acompanharemos ao longo do texto – raramente se tocam. A maior parte das ações que envolvem contatos físicos, especialmente aquelas oriundas de demandas afetivas, são realizadas por intermédio dos sacos, como se estes fossem corpos e os atores fossem as almas daqueles corpos, sua própria força motriz e vital.

Num imenso deserto, uma pessoa caminha solitária, procurando algo. Carrega nas costas, com dificuldade, enorme saco vermelho. Para aqui, para acolá, observa ao redor e nada no seu semblante indica sequer que esteja perto do que procura. De vez em quando apoia-se no próprio saco, acariciando-o, com melancolia. Em dado momento, uma segunda pessoa, também carregando um saco vermelho, aparece na cena também procurando algo. Olha aqui, olha acolá, até que os dois personagens se deparam um com o outro. Maravilhados, aproximam-se, cada um com os olhos fixos nos sacos que percebem nas costas do outro. Permanecem num encantamento silencioso até que 12.345 se adianta e fala.

12.345 – O seu saco é vermelho.

54.321 – O seu também.

12.345 – Nunca vi nada tão lindo.

54.321 – Nem eu.

Passam mais alguns instantes encantados observando seus sacos. De repente 12.345 decide se apresentar.

12.345 – Eu sou doze mil trezentos e quarenta e cinco, e você? Qual o seu nômero?

54.321 – Você é doze mil trezentos e quarenta e cinco?

12.345 – Sou. Por que?

54.321 – É extraordinástico!

12.345 – Como, extraordinástico?

54.321 – É que o meu nômero é cinquenta e quatro mil, trezentos e vinte e um!

12.345 – Ai, meu Tudeus!

54.321 – Você notou? Nossos nômeros são o reverso um do outro.

12.345 – Isso não é possível.

54.321 – Não pode estar acontecendo, eu sei. 

12.345 – Poder, até poderia, mas é dificultante de acreditar que esteja realmente acontecendo.

54.321 – É por isso que talvez não esteja acontecendo.

12.345 – Mas, se não está acontecendo, o que se passa aqui? 

54.321 – Não faço idéia. 

12.345 – Eu não fumasquei. Você fumascou?

54.321 – Não. Nem cheirolei. Você cheirolou?

12.345 – Não.

54.321 – Será que enlouqueceramos?

12.345 – Ao mesmo tempo? Seria muita coincidência. Além do mais eu tenho os pés no chão.

54.321 – Eu também.

12.345 – Então não pode ser loucurice.

54.321 – Não pode mesmo.

12.345 – Um sonhamento?

54.321 – (Beliscando o próprio saco vermelho) Também não. Vê? (Olhando em redor) Estou beliscando o meu saco e tudo continua igual: eu aqui, você aí.

12.345 – (Também beliscando o próprio saco vermelho) Tem razão. Você aí, eu aqui.

Acalmando-se, constatando a realidade.

54.321 – Então…

12.345 – Sim.

54.321 – É o fim da linhada. 

12.345 – Acabou a procuração. 

54.321 – Você existe!

12.345 – E você também!

Olham-se com alegria, imensa e difícil de ser contida.

SAIBA MAIS SOBRE “SACOS VERMELHOS, OS”

ORIGEM

A exemplo do que ocorreu com a imagem de um menino montado nos ombros de um Minotauro, desencadeando em Botelho a criação da peça “Menino Minotauro”, aqui aconteceu com a frase “somos muito mais do que simples sacos de carne”. O autor não lembra onde ouviu (ou leu) nem quem disse esta frase, mas é certo que ela foi a provocação que deu origem à peça “Os sacos vermelhos”.

PRIMEIRA APRESENTAÇÃO

A primeira montagem desse texto aconteceu em dezembro de 2001. Foi uma apresentação única no Teatro Capiba (SESC Casa Amarela – PE), dentro das atividades de conclusão do “Curso de Iniciação à Direção Teatral” (UFPE / TEM / FAT), ministrado pelo ator e diretor Roberto Lúcio. No elenco estavam os atores Gérson Lobo e Jorge Clésio.

OUTRAS MONTAGENS

Em 2002 o texto foi dirigido pela também atriz, produtora e gestora cultural Galiana Brasil, com os atores Kléber Lourenço e Rodrigo Rizla. A apresentação única ocorreu nas dependências do Centro de Artes da Universidade Federal de Pernambuco, como atividade da disciplina do Curso de Educação Artística – Habilitação Artes Cênicas.

Em 14 de novembro de 2007, o ator e doutor em Teatro Rodrigo Dourado dirigiu uma leitura dramatizada de “Os sacos vermelhos” com o ator Daniel Barros e o ator, produtor, diretor e dramaturgo Didha Pereira. A leitura aconteceu no auditório da Livraria Cultura (Paço Alfândega), dentro da programação do X Festival Recife de Teatro Nacional.

Em 2013 o Coletivo Passarinho montou “Os sacos vermelhos” em Petrolina (PE), com o diretor Rafael Moraes e as atrizes Ádila Madança e Fernanda Luz. Além das apresentações em curtas temporadas em espaços locais e cidades próximas, a montagem foi selecionada pelo projeto “Palco Giratório” do SESC, circulando por outros estados e capitais.

Em 21 de agosto de 2016, foi apresentada no Teatro Apolo (Recife – PE) a montagem dirigida pela atriz Pollyanna Cabral, com elenco e produção da Oficina de Atores. A apresentação aconteceu na programação do 14.o Festival Estudantil de Teatro e Dança.

Em 27 de maio de 2020, durante a pandemia do Covid-19, o diretor Wellington Júnior realizou uma leitura dramatizada de “Os sacos vermelhos”, on-line e ao vivo através do Instagram, com os atores Alexandre Guimarães e Reinaldo Patrício. Tanto os dois atores quanto o diretor participaram dos ensaios e da apresentação em locais distintos.

A versão integral desta peça
estará disponível aqui mesmo, a partir de 05 de outubro de 2026,
quando informaremos a(s) forma(s) de aquisição do texto.

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