Já vi o tamanho da dor que é descobrir
GUGA
que as pessoas que a gente mais ama
não conseguem entender a gente.
Aventura dramática em um ato e vinte e cinco cenas.
RESUMO
No início da adolescência, um Minotauro passa a acompanhar Guga por toda parte. Incentivado por aquela criatura com corpo de homem e cabeça de touro, Guga começa a questionar as dinâmicas do mundo dos adultos e o seu papel nessas dinâmicas, trazendo-lhe muitas alegrias e, também, muitos problemas.
PERSONAGENS
Vinte (para 12 a 20 atores): Augusto José Brandão (Guga adulto), Guga, Minotauro, Mãe, Pai, Avô, Dona Vanina (primeira professora de Guga), Dona Zulmira (segunda professora de Guga), Dona Zezé (diretora da escola), Liana (primeiro amor de Guga), Tia (de Liana), Padre, Médico, Avô, Amiga (da mãe de Guga) e os seguintes amigos de Guga: João Antônio, Karina, Josué, Jacilene.
LEIA UMA CENA DA PEÇA
Cena VIII – Quando você crescer
A Mãe está sentada numa cadeira de balanço, rezando um terço.
MÃE
Guga. Saia desse banheiro e venha dormir.
GUGA
(De fora de cena) Estou fazendo cocô.
MÃE
Que cocô é esse que já dura duas horas. Venha dormir.
GUGA
Eu não quero dormir.
MÃE
Porque?
GUGA
Acordado demora mais a passar o tempo.
MÃE
E por que você não quer que o tempo passe?
GUGA
Por que estou com medo de ir para a escola.
MÃE
Mas era só o que faltava. Augusto José, isso não tem cabimento. Saia daí e vá direto para a cama.
GUGA
Está bem.
Guga aparece e se aproxima da Mãe. Ela o beija e guarda o terço que tinha nas mãos. Conversa com Guga enquanto o leva para a cama.
MÃE
Não precisa ter medo. Você é um menino muito comportado e estudioso.
GUGA
Eu não quero ver aquela mulher outra vez.
MAE
Isso não são modos de falar de uma senhora, Guga. Ela é sua professora e merece todo o respeito.
GUGA
Se eu pudesse nem ia mais para a escola.
MÃE
Mas precisa ir, para que um dia se forme, seja um doutor e fique muito rico, se Deus quiser. Você quer ser rico, não quer? Ter muito dinheiro para comprar tudo o que você quiser?
GUGA
Eu quero, mas desse jeito… Sei não.
Guga reza uma oração silenciosa, deita-se na cama e a Mãe o cobre com um lençol.
MÃE
A vida de adulto é muito difícil, Guga. Tudo o que a Dona Zulmira quer é preparar vocês para essa vida. Ela não pode ficar tratando os alunos feito uns bebezinhos. Vocês estão crescendo. Você quer ser tratado a vida toda como um bebezinho?
GUGA
Sei lá.
MÃE
E se fizéssemos de conta que tudo isso é um jogo? Feito “Jogo da Glória”, “Firo”, “Damas”… Agora, claro, como esse outro é um jogo que você não conhece, até aprender a jogar bem, terá que aceitar perder algumas rodadas. Não é assim que acontece? Tenha um pouco de paciência com Dona Zulmira. Verá que tudo ficará mais fácil. Promete que vai tentar?
GUGA
Prometo…
MÃE
(Ela dá-lhe um beijo e dirige-se ao pequeno candeeiro aceso perto da cama) Boa noite, Guga. Durma bem e que Deus te abençoe. Quer que deixe aceso?
GUGA
Não. Pode apagar.
A Mãe sai. Ouve-se um mugido. A sombra do Minotauro aparece, projetando-se no interior do quarto)
SAIBA MAIS SOBRE “MENINO MINOTAURO”
ORIGEM
Interessante poder lembrar exatamente do momento em que uma peça nasceu. Era março de 1989. Estava caminhando maravilhado – como tantas outras vezes – escaneando com meus olhos as centenas de prateleiras da “Livro 7”, gigantesca e acolhedora livraria, famoso centro de eventos artísticos e literários na Recife da era pré-shoppings. De repente (sempre é de repente) vi um desenho desconcertante na capa de um livro: uma criança abraçada a um enorme minotauro. “Que doidice é essa? Uma criança abraçada com uma criatura assassina?” O desenho era um bico de pena de Rolando Toro e o livro se chamava “Projeto Minotauro – Abordagem Terapêutica do Sistema Biodança”, de autoria do próprio Toro. Sentei numa pracinha que ficava no centro da livraria e comecei a ler o livro, tentando entender o que aquele autor queria dizer. A resposta veio logo nas primeiras páginas: “O Minotauro é uma imagem bestial que possui, ao mesmo tempo, a força dos instintos primordiais e a inocência da natureza. O encontro com essa criatura ameaçadora é a tomada de contato com nossos instintos, a convivência com o mundo selvagem que há em nós”.
Na época, além de ter concluído dois textos para o espetáculo “Mito ou mentira?” do Cênico Arteatro, eu começara a fazer terapia e a lidar com os ecos não resolvidos da transição da infância para a adolescência. As imagens arquetípicas evocadas pelo livro de Rolando Toro foram como um mote precioso falar sobre aquela intersecção de momentos, um no passado e outro no presente, ambos complexos, cheios de imagens e camadas de reflexão. Comecei a escrever a peça assim que voltei para casa. Mas o processo não fluiu com a facilidade que imaginei. Avancei e recuei inúmeras vezes. As vezes era tomado pela empolgação, noutras, pelo desânimo e desconforto. Cheguei a pensar que nunca terminaria o texto. A chave que me ajudou a destravar aquele processo de criação foi aceitar a fragmentação da narrativa. Eu precisei desistir de tentar explicar o que eu entendia para me gratificar em poder falar do que eu sentia, simplesmente mostrando pessoas e ações – inclusive eu mesmo – com a maior sinceridade possível. E as cenas foram surgindo, agora sem pressa. Vi minhas memórias se misturarem com histórias de outras crianças e adultos. Guga ganhou amplitude, bem como os pais e os amigos dele, num movimento nítido, com um fio condutor próprio. Terminei um ano depois. E, mesmo depois de me inscrever num concurso literário nacional em 1991 – minha primeira premiação – ainda fiz alterações. Pequenas, mas necessárias. E se precisar, farei mais.
PREMIAÇÃO
“Menino Minotauro” recebeu o Prêmio Hermilo Borba Filho na categoria Teatro Adulto, no Concurso Literário Estado de Pernambuco 1992. Botelho explica que decidiu inscrever a peça nessa categoria, temeroso que o júri considerasse achar algumas cenas fortes demais para crianças – apesar de abordarem situações reais – e viesse a desclassificá-la, caso fosse inscrita na categoria Teatro Infantil.
PUBLICAÇÕES E RECONHECIMENTO
A primeira publicação da peça aconteceu em 1994, pela Fundarpe/Cepe (Recife – PE), com capa e programação visual do próprio autor.
Em 2003 as Edições Paulinas publicaram a peça na coleção “Teatro de Papel”, com capa, programação visual e ilustrações de André Neves. A peça recebeu uma segunda edição em 2011, após a obra ter recebido o selo “Altamente Recomendável” da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ).
PRIMEIRAS MONTAGENS
O diretor Antônio Cadengue (1954 Lajedo [PE] – 1/8/2018 Recife [PE]), da Cia. Teatro de Seraphim (Recife – PE), tomou conhecimento da obra em 1993, através do Prêmio Hermilo Borba Filho, tendo manifestado o interesse em encená-la e recebendo a autorização de Luiz Felipe Botelho levar o projeto adiante. Em 1995 o diretor Geraldo Barros (Santa Cruz do Capibaribe [PE] – 6/12/99 Arcoverde [PE]), da ETEARC (Arcoverde – PE) também se interessou em montar a peça, após ler uma cópia da peça presenteada por um outro diretor, José Manoel Sobrinho (Bezerros [PE]), da TTTrês Produções (Recife – PE). Botelho também autorizou a montagem de Barros, sabendo que estava lidando com dois criadores talentosos, com visões particulares e potentes do fazer teatral, capazes de gerarem obras únicas que, por isso mesmo, não alimentariam uma competição entre si. Do ponto de vista ético, Botelho considerou que já haviam se passado dois anos desde o pedido de Cadengue, sem que houvesse qualquer garantia de que a montagem da Seraphim realmente acontecesse, além do que não houve nenhum acordo de exclusividade nesses contatos.
A montagem da ETEARC estreou em 14 de abril de 1996, no Centro Social Urbano Cohab I (Arcoverde – PE) enquanto que a montagem da Seraphim estreou em 12 de outubro do mesmo ano, no Teatro Barreto Júnior (Recife – PE), no qual fez temporada de dois meses aos sábados e domingos às 16h30.
De fato, a existência de duas montagens expressivas e simultâneas do mesmo texto não foi um problema. Ao contrário: ambas tinham marcas próprias e personalidades distintas. Enquanto a de Geraldo Barros era um musical efervescente, de ação vibrante e jovial, evocando o clima dos anos de 1960, a de Antônio Cadengue era solene e delicada, como um sonho adolescente materializado nas páginas de um livro clássico de conto de fadas. Ambas foram bem acolhidas pelo público e pela crítica da época.
Em termos de longevidade, a montagem da Seraphim encerrou suas apresentações no Festival Janeiro de Grandes Espetáculos (1997). Curiosamente, nesse mesmo período a encenação de Geraldo Barros também se apresentou no Recife, o que pôde reforçar a impressão de que cada peça era, de fato, única e original, ainda que partindo de uma mesma matriz. Dali, a trupe da ETEARC continuou a circular por várias cidades e festivais do interior e da Capital, tendo recebido vários prêmios.
Em meados de 1997 a trajetória da montagem de Arcoverde foi impactada pela morte do ator Gérson Sales, que interpretava o avô de Guga, em um acidente no período em que o grupo participou do I FAP – Festival de Artes de Petrolina (PE). A consternação precipitou o fim de futuras apresentações pois, embora o próprio Geraldo Barros, diretor da peça, tivesse substituído Gérson nas récitas já marcadas, como o ator estava na montagem desde o início, ficou vinculado definitivamente – aos olhos e corações do grupo – à imagem e ao destino do personagem que interpretava.
MONTAGENS COM ESTUDANTES DE TEATRO
Apresentação no Teatro Capiba (Recife – PE) em 18 de dezembro de 2002, com os concluintes das Oficinas de Iniciação ao Teatro promovidas pelo SESC Casa Amarela. Direção de Kléber Lourenço e coordenação das oficinas por Galiana Brasil.
Temporada no Teatro Barreto Júnior (Recife – PE), de 18 de janeiro a 15 de fevereiro de 2004, aos domingos 16h30. Realizada pelos concluintes do Curso de Iniciação ao Teatro da Galharufas Produções, com direção de Samuel Santos e produção de Taveira Júnior.
Duas sessões da montagem do “Fulcro Abstração”, grupo de Teatro do IFMT de Alta Floresta (MT) em 03 de julho de 2018 no Espaço Cultural TEAF. Direção de Eduardo Machado.
A versão integral desta peça
estará disponível aqui mesmo, a partir de 05 de outubro de 2026,
quando informaremos a(s) forma(s) de aquisição do texto.

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