Quando cansa de ser Cármen Lúcia,
ele é Colebra, um cangaceiro
que já sangrou muita gente por aí.MARIA NOVA
Drama em 1 ato e 23 cenas, ambientado nos anos 30 do século XX em local fictício no nordeste brasileiro, durante o ciclo do Cangaço.
Virgulino Lampião escolta o afilhado Epitácio até o Coito de Salamanta, misteriosa comunidade isolada do mundo. A chegada do rapaz dá início a uma série de acontecimentos que nos revelam porque aquele refúgio era temido por muitos, inclusive cangaceiros e a própria polícia.
PERSONAGENS
Lampião, famoso cangaceiro; Maria Bonita, companheira de Lampião; Epitácio, afilhado de Lampião; Salamanta e Maria Nova, um casal de coiteiros; Aurora, Carmen Lúcia (representada por um homem) e Padre Hauser, três moradores do coito.
LEIA UMA CENA DA PEÇA
CENA III
Salamanta e Epitácio caminham até o coito.
EPITÁCIO
O senhor falou em água. (Aponta para uma cabaça presa ao cinto de Salamanta, fazendo as vezes de cantil) Tem água nessa cabaça? Pode me dar um pouco?
SALAMANTA
(Soltando a cabaça do cinto) Tome.
Trêmulo, Epitácio dá o primeiro gole, num misto de avidez e cautela.
EPITÁCIO
(Encantado) É água verdadeira. Posso beber mais?
SALAMANTA
O quanto quiser.
EPITÁCIO
(Bebe avidamente) Gostosa, fresca. Nem salobra é. (Suspira de prazer, devolvendo o cantil) Obrigado.
SALAMANTA
Quando quiser mais…
EPITÁCIO
De onde vem?
SALAMANTA
Qualquer dia eu lhe mostro.
EPITÁCIO
Como o senhor sabia que o Capitão Virgulino estava lhe esperando?
SALAMANTA
(Pára e mostra a região) Está vendo esses morros? Sempre tem gente minha por aí,
tocaiando o lugar onde vocês estavam. Quando o Capitão chega, o pessoal vê e me avisa.
EPITÁCIO
Aquela comida que o senhor falou, o queijo, as pinhas, são daqui?
SALAMANTA
São. (Tira meia espiga de milho enrolada num pano e dá para Epitácio) Coma. Milho assado. Quente é mais gostoso, mas como está verdinho, macio, dá para ir enganando a fome até chegar no coito.
EPITÁCIO
Obrigado, seu Salamanta. (Desembrulha a espiga e começa a comer o milho)
SALAMANTA
“Seu”, não. Salamanta e pronto. (Noutro tom) E a história do filho do prefeito? Como é que foi?
Epitácio tenta disfarçar o incômodo causado pela pergunta.
SALAMANTA
Você matou o sujeito ou mandou matar?
EPITÁCIO
E não dá no mesmo?
SALAMANTA
Não… (Sorri, olhando fixamente para Epitácio) Olhar nos olhos da vítima na hora de acabar com ela faz muita diferença.
Epitácio desvia o olhar.
EPITÁCIO
A gente pode matar com as próprias mãos sem precisar olhar nos olhos.
SALAMANTA
Também. E como foi que você fez? Atirou pelas costas?
EPITÁCIO
Não sou covarde. Atirei no escuro. Não dava pra ver que era uma pessoa. Dei dois tiros. Não vi olho nenhum. Matei uma sombra.
SALAMANTA
Atirou, assim, sem perguntar?
EPITÁCIO
Sem perguntar. Aconteceu rápido, achei que era um bicho, uma onça, não sei o que me passou pela cabeça.
SALAMANTA
Um acidente.
EPITÁCIO
Foi, sim senhor.
SALAMANTA
Foi a primeira vez que matou gente?
EPITÁCIO
Primeira e única, se Deus quiser.
SALAMANTA
Ao menos acabou matando alguém que você não prezava.
EPITÁCIO
Não prezava e nem desprezava.
SALAMANTA
Mas matou.
EPITÁCIO
Matei sem querer. Não foi por gosto.
SALAMANTA
Que importância tem se você gostou ou desgostou? O tiro saiu e a bala matou. Isso não vai mudar.
EPITÁCIO
Se eu tivesse gostado não estaria cheio de remorso.
SALAMANTA
Matou está matado, com remorso ou sem remorso. Para que perder tempo se importando com o que não tem mais jeito?
EPITÁCIO
Você nunca sente remorso?
SALAMANTA
Remorso só presta para dar cartaz a sofrimento.
EPITÁCIO
Não sente remorso nem quando mata?
SALAMANTA
Nem quando mato nem em hora nenhuma. Não nasci sabendo de tudo. Só faço o que eu sei, o que devo e o que posso. O resto é deslize e ninguém escorrega na vida de propósito. (Faz um gesto para que Epitácio se aproxime) Chegue.
Salamanta tira do bornal um lenço grande.
EPITÁCIO
O que é isso?
SALAMANTA
Um lenço. Venha cá.
EPITÁCIO
Para que?
SALAMANTA
(Aproximando-se por trás de Epitácio para colocar o lenço) Chegue para eu colocar isto nos seus olhos.
EPITÁCIO
(Se afastando) Não.
SALAMANTA
Daqui pra frente o caminho é segredo.
Salamanta avança mais uma vez e Epitácio volta a se afastar.
SALAMANTA
(Paciente, seguro) Venha cá, homem.
EPITÁCIO
Você vai acabar comigo, não é?
SALAMANTA
Se eu quisesse já tinha acabado. Venha.
EPITÁCIO
Fale a verdade, Salamanta, me faça esse favor. O Capitão não quis fazer o serviço porque sou afilhado do falecido irmão dele. É ou não é? Hem? Pode falar.
Num átimo, Salamanta larga o lenço no chão, tira a pistola do coldre e aponta para a fronte de Epitácio com tamanha tranquilidade e decisão, que o rapaz fecha os olhos e retesa o corpo, aguardando o disparo.
SALAMANTA
Abra os olhos!
Epitácio não obedece.
SALAMANTA
Abra!
Epitácio abre os olhos.
SALAMANTA
Agora me diga qual é a diferença entre lhe dar um tiro agorinha ou atirar depois de amarrar o lenço nos seus olhos?
(Silêncio)
SALAMANTA
Diferença nenhuma. (Salamanta guarda a pistola e começa a por a venda em Epitácio) Deixe eu botar logo esse lenço aqui.
EPITÁCIO
Estou tonto. Eu vou cair no caminho.
SALAMANTA
É só confiar em mim.
EPITÁCIO
Não é mais fácil você confiar em mim? Nem armado eu estou…
SALAMANTA
É mais fácil, mas o preço é muito mais alto. Repare direitinho e verá que, agora, nessa história de confiança, só quem tem alguma coisa a perder, aqui, sou eu. Gente, quando está com medo, sempre é muito perigosa.
Pega Epitácio pelo braço e o leva para fora de cena
SAIBA MAIS SOBRE “COITEIROS DE PAIXÕES”
A ideia da peça surgiu de um questionamento feito pelo psiquiatra Austro Queiroz em 2002, durante uma palestra em Recife (PE). Pernambucano radicado na França, Queiroz questionou até que ponto a imagem idealizada do humano masculino ainda persistia nos porões das mentes contemporâneas: um homem fisicamente forte, autoritário, que fala alto e em tom de voz grave, com gestos seguros como se fossem ensaiados, emoções quase sempre contidas ou disfarçadas através de piadas grosseiras. Esse conjunto seria mesmo uma expressão de sentimentos reais ou uma máscara secular para defender fragilidades sequer admitidas? Queiroz exemplificou que muitos homens enfrentariam até tiroteios, mas teriam dificuldades de lidar com a simples hipótese de serem traídos por quem amam ou de se perceberem minimamente atraídos por alguém do mesmo sexo. Luiz Felipe Botelho achou que aquilo poderia render muitas histórias. Ficou imaginando como seria se o próprio Virgulino Lampião reagiria se fosse obrigado pelas circunstâncias a enfrentar – pacificamente – situações como aquelas mencionadas por Austro Queiroz.
Botelho conta que a primeira imagem que lhe ocorreu no processo de criação da peça foi a conversa entre Lampião e o afilhado Epitácio, como se estivessem a caminho de um misterioso refúgio temido até mesmo por um cangaceiro. O restante da história veio naturalmente, a cada pergunta que Botelho se fazia sobre o universo no qual ele estava adentrando: por que estavam indo para aquele refúgio? Como era esse coito misterioso? Onde ficava? Quem vivia lá? O que existia naquele lugar que assustava tanto cangaceiros quanto a maioria das pessoas que ouviam falar dele? Enfim, tudo fluiu, mas não necessariamente em ordem cronológica.
O nome do coito surgiu primeiro e, por muito tempo, foi a primeira opção do título da peça: “Coito de Salamanta”. O dono do nome “Salamanta”, que também é o nome de uma cobra constritora não-venenosa, ficou indefinido por algum tempo: seria o apelido de uma mulher ou de um homem? Imagens soltas do cotidiano do coito foram surgindo em exercícios de criação, bem como o tipo de pessoa que buscava proteção específica em um esconderijo distante do mundo. Ficou óbvio que seria gente rejeitada pela maioria da sociedade daquela época, incluindo os criminosos mais violentos e perigosos.
Apesar dessa elaboração fragmentada – semelhante à que ocorreu no processo de criação da peça “Menino Minotauro” – “Coiteiros de Paixões” foi um dos textos escritos em menos tempo por Botelho. Em três semanas o trabalho foi concluído e poucas alterações foram feitas desde então.
COITEIROS EM MONTAGEM PAULISTA
No início de 2003, numa conversa telefônica, Luiz Felipe Botelho comentou com o dramaturgo Newton Moreno que tinha concluído um novo texto, resumindo brevemente do que tratava. Moreno sugeriu que Botelho o inscrevesse na seleção da segunda edição de uma mostra de Dramaturgia que estava sendo promovida na época pelo SESI-SP. Assim foi feito.
No mesmo ano “Coiteiros de Paixões” foi selecionada para a 2.a edição da Mostra SESI de Dramaturgia Contemporânea, em São Paulo, o que incluiu a montagem da obra pela Companhia Teatro Promíscuo, de Renato Borghi e Élcio Nogueira Seixas. Outras cinco obras fizeram parte daquela edição da Mostra: “Alta noite”, de Elísio Lopes Jr. (BA); “Braseiro”, de Marcos Barbosa (CE); “El muro de Berlim nunca existió”, de Luis Vidal Giorgi (Uruguai); “Então, felicidades!”, de José Mora Ramos (Portugal); “Mal necessário”, de Cássio Pires (SP).
A montagem estreou em 26 de novembro de 2003, no Teatro Popular do SESI, na Avenida Paulista em São Paulo, após uma breve circulação pelo interior do estado. Na capital, ficou em curta temporada de 26 a 30/11 e de 03 a 07 de 12. A direção do espetáculo foi de Johana Albuquerque. No elenco, Élcio Nogueira Seixas (Lampião e Cármen Lúcia), Luah Guimarães (Maria Bonita), Ariel Borghi (Epitácio); Renato Modesto (Salamanta), Regina França (Maria Nova), Valéria Pontes (Aurora) e participação especial de Renato Borghi (Padre Hauser). A produção foi da Mostra SESI de Dramaturgia Contemporânea e da Companhia Teatro do Promíscuo.
Posteriormente aconteceram apresentações dessa montagem de “Coiteiros de Paixões” em Salvador (07 e 08/08/2004), na sala do coro do Teatro Castro Alves; em Recife (14 e 15/08/2004), no Teatro de Santa Isabel; e no Rio de Janeiro (02 e 03/10/2024), no Teatro Maria Clara Machado. Nessa circulação pelo país, foram incluídas as seguintes montagens da 1.a edição da Mostra SESI: “Dentro”, de Newton Moreno (PE); “Três cigarros e a última lasanha”, de Fernando Bonassi e Victor Navas (SP); “Deve ser do caralho o Carnaval em Bonifácio”, de Mário Bortolotto (SP); e “Sonho de núpcias”, de Otávio Frias Filho (SP).
COITEIROS EM MONTAGEM CARIOCA
Em 2013 o texto foi montado no Rio de Janeiro pela Companhia Cordão Encarnado, com direção de Josué Soares e direção musical de Dalus Gonçalves. No elenco, Alexandre Constantino, Ângelo Meyerhoffer, Daniel Vaz, Daniela Tibau (Maria Nova), Ernandes Cardoso, Joelma di Paula (Aurora) e a participação especial de Elba Ramalho como Maria Bonita. A peça fez temporada nos dias 5 a 8 e 13 a 15 de setembro de 2013 no SESC Tijuca e nos dias 9, 10; 16, 17; 23 e 24 de outubro de 2013 no teatro do Centro Cultural Municipal Parque das Ruínas, em Santa Teresa.
A montagem carioca recebeu os seguintes prêmios no XII Festival de Teatro da Cidade do Rio de Janeiro (novembro de 2014): melhor espetáculo, melhor direção, melhor ator (Daniel Vaz), melhor atriz coadjuvante (Joelma di Paula), melhor ator coadjuvante (Alexandre Constantino), melhor figurino (Ricardo Rocha) e melhor iluminação (Pablo Rodrigues).
PUBLICAÇÃO NO BRASIL
O texto de “Coiteiros de Paixões” foi publicado pela primeira vez em 2005, como uma das peças integrantes do volume 1 da Coleção Teatro Nordestino, publicado pela Fundação José Augusto, Editora UFRN e Fundarpe.
PUBLICAÇÃO NA COLÔMBIA E NA FRANÇA
Em 2014, em Bogotá, foi publicada em espanhol pela Intermedio Editores na coletânea “Teatro Contemporâneo Brasileño”, com o título de “Refugio de las passiones” e tradução de Carolina Virguez.
Em 2015, em Paris, foi publicada em francês pela Anacaona Editions, na coleção “Le Théatre Contemporain Brésilien”, com o título “Le repaire des passions”, tradução de Melenn Kerhoas.
Nas duas coletâneas acima, também participaram os seguintes dramaturgos: Carla Faour, Grace Passô, Jô Bilac, Júlia Spadaccini, Juliano Marceano, Márcia Zanelatto, Newton Moreno, Paulo Santoro, Pedro Brício, Sérgio Roveri, Sílvia Gomes e Walter Daguerre.
LEITURA DRAMÁTICA EM BOGOTÁ
No XIV Festival Iberoamericano de Teatro de Bogotá, foi realizada leitura dramática da peça com alunos da Academia de Artes Guerrero-Ágora, da Universidade Central Escuela de Teatro Libre, dentro do ciclo de leituras “Teatro Brasileño Contemporaneo”.
A versão integral desta peça
estará disponível aqui mesmo, a partir de 05 de outubro de 2026,
quando informaremos a(s) forma(s) de aquisição do texto.
