Saboreio ansiosa a perspectiva
de um amanhã no qual parir
será prenúncio de alegria,
jamais de desencanto.RÉIA
Drama mítico em três cenas, sobre os eventos que antecederam à morte de Cronos, sob a ótica de Réia, irmã e esposa desse deus.
RESUMO
Exausta de tanto testemunhar o marido Cronos devorar cada filho e filha que ela põe no mundo, a deusa Réia cria um estratagema e consegue salvar ao menos uma de suas crias: o menino Zeus. A esperança de Réia é ver a criança se tornar um adulto e ajudá-la a dar um fim a no reinado de horror mantido por Cronos.
PERSONAGENS
Três (para 2 a 3 atores): Réia, Cronos e Zeus.
LEIA UMA CENA DA PEÇA
Cena I – Lamentos
Réia experimenta crescente pânico, ao deparar-se uma vez mais com os terríveis prenúncios da cíclica sina determinada por Cronos, seu irmão e marido: cada filho a que Réia der à luz perecerá devorado pelo próprio pai.
RÉIA
Olá! Quem está aí? Saia da névoa para que lhe veja o semblante! (Para si mesma) Queria que não fosse quem sei que é. Queria que não estivesse prestes a fazer o que, bem sei, fará. (Para o vulto) Meu irmão? É você? (Silêncio) Meu irmão? Cronos? (Silêncio) Não responde e eu sei bem o motivo. Não está só. Esse vulto amordaçado que tem nas mãos é mais um filho meu. A mordaça oculta-lhe as palavras, porém, não lhe tolhe as idéias e eu, mãe que sou, aterrorizada escuto pensamentos de um pânico invulgar, como só aqueles que vão morrer são capazes de sentir.
Réia grita e avança como fera na direção de Cronos, mas é detida e atirada ao chão. Ali permanece, porque sabe que não adianta tentar, tantas vezes já repetira aquele gesto e tantas vezes resultou em nada. Mas não desiste de argumentar, implorar, empenhar a última gota de energia que lhe resta para salvar o filho prestes a ser sacrificado.
RÉIA
Solte meu filho! Largue dele! Sou eu, sua mulher e sua irmã quem implora. (Silêncio) Monstro, faça o que peço, o que lhe custa? (Silêncio) E nada fala, nem sequer interrompe esse ritual que antecede seu macabro repasto. Minhas súplicas são impotentes. Parecem desgastadas com a repetição. Não tenho mais frases novas para exigir a mesma coisa, mas o que sinto no cerne deste útero é uma dor renovada e cada vez mais profunda. Cronos, quantas centenas de milhões de vezes repetirei estas mesmas palavras. Deixe que este viva. Só este. Só este…
SAIBA MAIS SOBRE “REIA”
O texto de “Réia” funcionava como um prólogo para a peça “Hades”. Para integrar-se às ideias da encenação de Denilson Neves, idealizador do projeto como um todo, “Réia” abraça os aspectos mais sombrios, poéticos e trágicos dos relatos míticos. O tom é bem diferente da esfuziante celebração da vida que a encenação de Denilson e o texto de Luiz Felipe Botelho assumiam em seguida, com a tragédia cedendo lugar para o dramático e para a comédia. O forte contraste foi intencional e funcionava bem no palco, com um elenco que cantava, dançava e interpretava entre cenas com marcações e coreografias exuberantes. A direção de arte e os figurinos criativos baseavam-se em materiais reciclados e trabalhos artesanais que, sob o efeito da iluminação e da trilha sonora, evocavam a memória de civilizações agrárias. Porém, meses depois de concluída a primeira e única temporada de “Hades”, Botelho observou que, uma vez que um leitor se deparasse apenas com o texto dessa obra, sem a presença de todas as referências visuais, auditivas e coreográficas da encenação, o encaixe entre o prólogo e o restante da peça não se consumaria de modo satisfatório como foi pensado originalmente. Assim, para não abandonar o texto que escreveu para o espetáculo, Botelho decidiu separar as duas partes da peça e, posteriormente, revisá-las e constituí-las como textos independentes.
A versão integral desta peça
estará disponível aqui mesmo, a partir de 05 de outubro de 2026,
quando informaremos a(s) forma(s) de aquisição do texto.
