Eu sei que o senhor
está com raiva,
mas não desconte
nos seus sonhos, não.CATIRINA
Drama cômico em 2 atos e 31 cenas com referências regionais contemporâneas dialogando com personagens do imaginário popular do Nordeste do Brasil.
RESUMO
Ao se deparar com o fracasso iminente do trabalho de uma vida, Antônio fica no limiar da existência, desmemoriado, com a sobrevivência dependendo do inesperado apoio de personagens de um folguedo popular.
PERSONAGENS
Dezoito (para 8 a 18 atores): Antônio; Pai de Antônio; Mãe de Antônio; Mateus; Catirina; Primeiro, Segundo e Terceiro Mastins; Doutor; Caboclo lanceiro; Boi; Ema; Cabra Cabriola; São Pedro; Dois anjos; Babau; Pajé; Cacique.
LEIA UMA CENA DA PEÇA
Ato I – Cena XII
O Doutor termina de examinar Antônio e começa a explicar a situação para Catirina e Mateus, enquanto guarda os instrumentos que tinha utilizado.
DOUTOR
A situação é muuuuito séria. Ele perdeu a cara e a coroa.
CATIRINA
Doutor! Coroa eu nem sabia que ele já teve uma, mas a cara? (Apertando as bochechas de Antônio) Mas e essa cara que está aqui?
DOUTOR
É de mentira.
MATEUS e CATIRINA
Valha-nos Nossa Senhora!
Catirina apalpa o rosto de Antônio.
CATIRINA
Não há quem diga. Tão bem-feitinha!
Mateus puxa a mão de Catirina. Catirina se desvencilha e volta a tocar no rosto de Antônio, encarando Mateus.
DOUTOR
(Confirmando com a cabeça) Pois é. Perdeu a cara também.
MATEUS
Tem remédio para isso?
DOUTOR
Tem. O difícil vai ser encontrar.
MATEUS
Diga onde tem que eu vou atrás.
DOUTOR
(Sombrio) Vai mesmo, Mateus?
MATEUS
(Assustado) Ui! Que olhar é esse, Doutor?
DOUTOR
O remédio para Meu Rei é um só: O Cálice Bento. É a cura certa para os males do espírito, removedor das sombras e restaurador da verdade. Somente alguém com intenção pura e verdadeira no coração, que esteja disposto a arriscar sua vida, poderá encontrar o Cálice, onde quer que ele esteja.
MATEUS
A vida, é? Remediozinho mais caro.
CATIRINA
Você vai, Mateus?
MATEUS
Eu não sei se tenho essas purezas todas…
DOUTOR
Só presta para ir se for sincero. Não adianta ir a pulso.
MATEUS
E se eu não for? Se ninguém for?
DOUTOR
Assim, tudo morrerá mesmo, sem apelação. Primeiro morrerão os sonhos. Depois, o sonhador.
O clima pesa. O trio olha para Antônio. Silêncio.
SAIBA MAIS SOBRE “REIS ANDARILHOS”
DE ONDE VEIO A IDEIA DESTA PEÇA?
Acho que a peça ‘Reis Andarilhos’ nasceu da mistura de inquietações que culminou com a minha decisão em me afastar dos trabalhos de Arquitetura e Urbanismo, no início de 1990. Era o auge do meu desencanto ao constatar como esses dois campos de atuação, justamente por serem essenciais nas dinâmicas humanas, tendiam a ser manipulados política e economicamente. Assim, eram utilizados – e, muitas vezes, distorcidos – no planejamento de bairros e cidades, na repetição vazia da palavra ‘desenvolvimento’ e nas ações supostamente voltadas para a melhoria da qualidade de vida de todos os cidadãos. O personagem Antônio, obviamente, é uma projeção de minha própria desorientação e tristeza diante desse desencanto. É o Felipe de uma outra linha do tempo, filho de um bonequeiro, que acreditou no discurso de muitos adultos sobre quais profissionais – ou áreas de atuação – eram ‘indispensáveis’ no mundo, em detrimento do poder restaurador e vitalizante contido em todas as artes e na essência única de cada indivíduo deste planeta.
PREMIAÇÃO E PUBLICAÇÃO
Com “Reis Andarilhos” Botelho recebeu em 1993, pelo segundo ano consecutivo, o Prêmio Hermilo Borba Filho na categoria Teatro Adulto, no Concurso Literário Estado de Pernambuco.
A obra foi publicada no ano seguinte pela Fundarpe, promotora do concurso, como parte da premiação. Botelho também criou a programação visual da capa e a diagramação dessa edição de 1000 exemplares, lançada no mesmo ano no Espaço Pasárgada (Recife – PE).
PRIMEIRA MONTAGEM
A primeira montagem de “Reis Andarilhos” foi produzida pelo Grupo Fantasia de Teatro, de Surubim (PE), no agreste pernambucano, com incentivo de um auxílio-montagem que também fazia parte do prêmio da Fundarpe. O dramaturgo conheceu o Fantasia num dos eventos promovidos pela Federação de Teatro Amador de Pernambuco (Feteape) e gostava muito do trabalho do grupo. Cautelosos em aceitar a responsabilidade, os participantes do grupo propuseram que o próprio Botelho dirigisse o espetáculo, sabendo que teriam ainda que se organizar para viabilizar essa ideia. O resultado foi um convênio de cooperação cultural entre a Prefeitura do Município e o Instituto de Desenvolvimento Científico e Cultural da Fundação Joaquim Nabuco, para o qual o dramaturgo trabalhava. Esse convênio permitiu a ida de Botelho a Surubim, uma vez por semana, durante dois meses, para realizar as atividades da montagem.
Cada aspecto da montagem foi desenvolvido com a participação direta de todos os membros do grupo, através de oficinas organizadas por Botelho, abordando desde leituras do texto e desenvolvimento da corporalidade dos personagens até a elaboração de máscaras, bonecos, figurinos, adereços e peças de cenário. A estreia aconteceu em 30 de março de 1996, no Teatro do Colégio Marista (Surubim – PE), fazendo uma temporada de um mês, aos sábados e domingos às 21h.
Na sequência, essa montagem apresentou-se em Recife (PE) em 19, 20 e 21 de julho de 1996 no Teatro José Carlos Cavalcanti Borges; em 25 e 26 de janeiro de 1997 no Teatro Barreto Júnior, dentro da mostra “Todos Verão Teatro”.
No interior de Pernambuco apresentou-se em Caruaru, no Teatro do SESC (atual Teatro Rui Limeira Rosal) em 04 de agosto de 1996, dentro da programação do 10° Festival de Teatro Estudantil e Amador do Agreste (FETEAG); em Petrolina (PE), fez uma apresentação no I Festival de Artes em 06 de agosto de 1996.
No Ceará, em 06 de setembro de 1997, fez uma sessão no IV Festival Nordestino de Teatro de Guaramiranga (CE), no espaço “Tenda”.
Em 1997 foi selecionado para o 1° Festival Recife de Teatro Nacional, cidade na qual voltou a se apresentar pela terceira vez, desta feita no Teatro Apolo, nos dias 28 e 29 de setembro.
SELEÇÃO PARA PRÊMIO
Em abril de 1997, a montagem do Grupo Fantasia foi anunciada como representante de Pernambuco na seleção Nordeste para o “Prêmio de Teatro de Mérito Lusófono – versão 96”, da Fundação Luso-Brasileira para o Desenvolvimento do Mundo de Língua Portuguesa, concorrendo com obras do Maranhão (“A filha da chuva”, texto a partir poesias de Marluze Pastor, direção de Lio Ribeiro e produção da Cartágenes Artes Produções), Alagoas (“Ratofuso”, texto e direção de Lael Correia, produzido pelo Grupo Infinito Enquanto Truque), Sergipe (“Ratos de esgoto”, de Vieira Neto, dirigida por Luiz Carlos Dussantus, da Labor Produções), Bahia (“Cuida bem de mim”, de Filinto Coelho, direção de Luiz Marfuz, produção do Grupo de Teatro do Liceu de Artes e Ofícios da Bahia) e Piauí (“Auto de Lampião no Além”, texto de José Gomes Campos, dirigido por Arimatan Martins e produzido pelo Grupo Harém de Teatro), tendo este sido o representante premiado
MONTAGENS EM PERNAMBUCO
Em 2012 “Reis Andarilhos” foi montado pelo Grupo Teatral Ariano Suassuna e Escola Santos Cosme e Damião (Igarassu – PE), apresentou-se no Teatro Apolo (Recife – PE) no 10° Festival Estudantil de Teatro e Dança, tendo recebido os prêmios de Melhor Espetáculo Adulto, Ator, Atriz, Figurino e Maquiagem.
A versão integral desta peça
estará disponível aqui mesmo, a partir de 05 de outubro de 2026,
quando informaremos a(s) forma(s) de aquisição do texto.
