Superneuras

Esse negócio de ser hiper-isso,
super-aquilo, as pessoas se acham
no direito de julgar que a gente
é perfeito, sabe, que a gente vai
realizar todos os sonhos delas.

HIPERMAN

Comédia em duas cenas sobre membros de um grupo de super-heróis compartilhando suas crises existenciais.

RESUMO
Dois dos mais poderosos heróis da Terra, no limite emocional de si mesmos, decidem desabafar um para o outro e expor suas dificuldades pessoais, na tentativa de encontrar paz e, quem sabe, espaço para viver o amor.

PERSONAGENS
Três (para 3 atores): Hiperman, Mulher Maravilhosa e Nightman.

LEIA UMA CENA DA PEÇA

Trecho inicial

Na sala principal do Clube da Justiça, a super-heroína Driana Pinto, mais conhecida como Mulher Maravilhosa, anda de um lado para o outro, fumando muito, ansiosa. Deixa um cigarro em um cinzeiro, anda um pouco, acende outro cigarro. Volta ao cinzeiro, pega o outro cigarro e se dá conta que já está com um na boca. Pensa em apagar um dos dois, mas decide fumar ambos, ao mesmo tempo. Entra Cláudio Kênio, o Hiperman, chorando. Ambos tentam disfarçar, ela apagando os cigarros, ele tentando fingir que não estava chorando.

HIPERMAN
Desculpe, Mulher Maravilhosa. Pensei que não houvesse ninguém por aqui.

MULHER MARAVILHOSA
Olá, Hiperman.

HIPERMAN
(Abanando o ar enfumaçado) Pensei que tivesse deixado de fumar.

MULHER MARAVILHOSA
Eu deixei de fumar.

HIPERMAN
E essa fumaça toda, esse cheiro de cigarro.

MULHER MARAVILHOSA
Achou pouco o flagra? Quer que eu confesse o óbvio?

HIPERMAN
Faz bem admitir um problema.

MULHER MARAVILHOSA
Você não é meu terapeuta.

HIPERMAN
Sou seu amigo. Amigos se ajudam.

MULHER MARAVILHOSA
Claro. Vamos lá, então. Me fale desses seus olhos vermelhos, esses rastros de água no seu rosto. Não foi a umidade das nuvens, tenho certeza.

HIPERMAN
Desculpe, Driana. Fui cínico agora. Desculpe. Você sabe que não sou assim.

MULHER MARAVILHOSA
Eu sei, Cláudio. Está desculpado.

Hiperman senta num canto e chora com alguma discrição. Mulher Maravilhosa olha para ele e fica sem saber o que fazer. Olha para os lados, como se procurasse algo. Volta a olhar para Hiperman. Olha para o lado oposto, esfrega as mãos e decide acender outro cigarro. Solta uma longa baforada.

MULHER MARAVILHOSA
Meu amigo, me diga, por favor, o que está acontecendo?

HIPERMAN
(Ainda fluindo num pranto quieto, com a voz embargada) Nada. Nada.

MULHER MARAVILHOSA
Está chorando sem motivo?

HIPERMAN
É.

MULHER MARAVILHOSA
Tá. Entendi.

O choro continua. Mulher Maravilhosa tira outro cigarro da carteira e põe nos lábios junto com o outro.

MULHER MARAVILHOSA
Concordo com você. Admitir um problema faz bem e amigos se ajudam.

HIPERMAN
(Entre soluços discretos) Que bom.

MULHER MARAVILHOSA
Pois é.

HIPERMAN
Eu falo dos meus problemas se…. (soluço) se você falar dos seus também.

Mulher Maravilhosa pensa enquanto dá uma tragada nos dois cigarros.

MULHER MARAVILHOSA
Que coisa. Já passamos por isso antes. As mesmas lágrimas, as mesmas frases, os mesmos silêncios. Quantas vezes?

HIPERMAN
Sei lá. Umas mil vezes.

MULHER MARAVILHOSA
Os dois com o emocional fodido, desorientados.

HIPERMAN
Um oferece ajuda.

MULHER MARAVILHOSA
O outro recusa, o outro insiste…

HIPERMAN
Aí vem a frase de sempre.

MULHER MARAVILHOSA
“Eu falo dos meus problemas se você falar dos seus também”.

HIPERMAN
Lembra do que acontece agora?

MULHER MARAVILHOSA
Um de nós dois inventa uma emergência, pede desculpas e foge para desabafar de qualquer jeito, se acabando de chorar, sozinho, em algum fim de mundo por aí.

HIPERMAN
Quer saber? Se quiser fugir, aproveite. Vou ficar por aqui mesmo.

MULHER MARAVILHOSA
Isso aí é novidade.

HIPERMAN
Não quer fugir?

MULHER MARAVILHOSA
Não.

Os dois se olham em silêncio. Hiperman abre um pequeno sorriso.

MULHER MARAVILHOSA
Cláudio Kênio, se eu falar dos meus problemas você jura que fala dos seus também?

HIPERMAN
Sério, Daiana? Depois desses anos todos?

MULHER MARAVILHOSA
Estou cansada disso. A hora é essa. (Apagando os cigarros e dando um longo suspiro) E aí? Topa ou não?

HIPERMAN
Topo.

Mulher Maravilhosa senta ao lado de Hiperman.

SAIBA MAIS SOBRE “SUPERNEURAS”

Foi criada em 2005 a partir de uma provocação do ator, diretor e produtor cultural Antônio Rodrigues, para integrar o espetáculo “Neuroses”, uma reunião de cinco esquetes de autores brasileiros: Rogério Mesquita (CE), Sérgio Roveri (SP), Yuri Yamamoto (CE) e Antônio Rodrigues (PE). Como tema comum, essas obras abordavam o lado cômico de situações neurotizantes do cotidiano. O espetáculo estreou em 2006 em curta temporada no Teatro Arraial (Recife – PE), com direção de Antônio Rodrigues e produção da Cênicas Companhia de Repertório.

A versão integral desta peça
estará disponível aqui mesmo, a partir de 05 de outubro de 2026,
quando informaremos a(s) forma(s) de aquisição do texto.

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