São as regras
MILANGA
que fazem o jogo ser jogo.
Trapaça é coisa
para quem não quer jogar.
Aventura dramática, em um ato e treze cenas, sobre a passagem da infância para a adolescência, baseada em personagens da literatura oral brasileira.
RESUMO
Criança recebe a missão de levar um baú através de caminhos tortuosos e cheios de desafios. Ao perder o baú durante a jornada, descobre que terá que resgatá-lo e entregá-lo ao verdadeiro dono, senão jamais reencontrará o caminho de si mesmo.
PERSONAGENS:
Catorze (para 7 a 14 atores): K´Temeré (feiticeira, matriarca); Menino/Rapaz; as irmãs Botilde e Matilde; o Curandeiro; a Raposa, o Macaco e a Onça; o Caçador; a Comadre Fulozinha (entidade protetora das matas e da natureza); Zabelinha (adolescente em fuga); Mendiga; Padrinho (padrasto de Zabelinha); e Milanga (uma das muitas faces do diabo).
LEIA UMA CENA DA PEÇA
Cena IV – De como o Menino reencontra K’Temeré e tem que enfrentar seu castigo
O Menino entra as pressas e pára bruscamente ao encontrar K’Temeré de costas. Ele aproxima-se com muito cuidado e medo.
K’TEMERÉ
Voltou depressa.
MENINO
É que, aconteceu uma coisa… Uma coisa ruim.
K’TEMERÉ
E como você resolveu essa coisa ruim?
MENINO
Não resolvi. Não sabia como resolver. Vim pedir ajuda.
K’TEMERÉ
Muito bem. Onde está a arca?
MENINO
Essa é a coisa ruim… Duas mulheres chegaram e…
K’TEMERÉ
(Cortante, voltando-se para o Menino, totalmente transfigurada numa monstruosa criatura) Não interessa! Não interessa o que fizeram!
K’Temeré avança para o Menino, que, sem conseguir fugir, ajoelha-se no chão.
MENINO
Elas me enganaram.
K’TEMERÉ
Cale-se! Eu não quero saber! A arca está com você?
MENINO
Não…
K’TEMERÉ
Isto me interessa! Eu disse que você era o responsável pela arca! Devia ter dado a vida por ela! Não deu por vontade própria, dará à força.
MENINO
Não me mate, por favor.
K’TEMERÉ
Levante-se daí!
O Menino levanta-se.
K’TEMERÉ
Nem pai, nem irmãos, nem família, nem nada. Agora você está perdido no mundo e assim ficará até que cumpra a tarefa para que foi escolhido.
O Menino olha em volta e não reconhece nada.
MENINO
Que lugar é este? Para onde a senhora me trouxe? Não faça isso comigo. Como eu vou viver? Onde eu vou morar?
K’TEMERÉ
O mundo vai lhe ensinar. Agora vá!
MENINO
Para onde, se eu nem sei mais onde estou?
K’TEMERÉ
Numa situação destas, qualquer direção é melhor do que ficar parado.
MENINO
(Revoltado, quase chorando) Eu não tive culpa.
K’TEMERÉ
Eu sei. Mas o responsável pela arca é você.
O Menino baixa a cabeça.
K’TEMERÉ
Epa. Nada de baixar a cabeça. Assim é que não vai conseguir nada, mesmo. (Tira uma grande e brilhante concha de caramujo do manto e estende para o Menino) Tome. Venha, pegue.
MENINO
(Hesitante, pega a casca de caramujo das mãos de K’Temeré) O que é isso?
K’TEMERÉ
Um aruá encantado.
MENINO
Para que serve?
K’TEMERÉ
(Saindo, lentamente) Para afastar quem se teme ou para encontrar quem se ama. Salvará sua vida no futuro. Mas só poderá usá-lo uma única vez.
MENINO
Quando?
K’TEMERÉ
Na hora certa você saberá.
MENINO
Outro segredo. Um segredo atrás do outro. Tudo é sempre assim?
K’TEMERÉ
(Sumindo na penumbra) Tudo é assim.
O Menino sai.
SAIBA MAIS SOBRE “O SEGREDO DA ARCA DE TRANCOSO”
ORIGEM E PRIMEIRA MONTAGEM
A peça foi criada na disciplina de Montagem do Curso Regular de Formação do Ator do SESC Santo Amaro (PE), da qual Luiz Felipe Botelho era o professor. Interessado em que os sete alunos da disciplina pudessem atuar num texto que realmente os motivasse, Botelho elaborou uma oficina de criação dramatúrgica. Assim, todos participaram na definição de aspectos como o gênero da peça que gostariam de montar (teatro para a criança e a juventude, mas que não entediasse os adultos), a temática (histórias que ouvíamos quando crianças), um fio condutor (um motivo forte o bastante para a plateia se interessar em acompanhar a história), os personagens (uma criança, um mestre ou mestra, animais falantes, criaturas sobrenaturais, vários vilões, um “chefe de fase”) e outros detalhes considerados essenciais pelo grupo (suspense, traições, humor, um romance, um final surpreendente). O conjunto dessas escolhas foi tratado como um quebra-cabeças, a partir do qual o grupo ia discutindo e estabelecendo uma sequência lógica das cenas, até chegar a uma estrutura geral da peça. Definido esse esboço, Botelho assumiu a responsabilidade por dar uma forma dramática àquele conjunto de referências e objetivos, criando diálogos, aprofundando a personalidade de cada personagem e fazendo as ações – e interações – de cada cena fluírem com organicidade e coerência.
Os alunos-atores e co-criadores – e os nomes de seus respectivos personagens – foram: Ana Andrade (Zabelinha), Fátima Braga (K’Temeré, Raposa e Mendiga), Graça Belarmino (Botilde), Maria Lúcia Soares (Matilde), Quiercles Santana (Menino, Rapaz e Macaco), Ricardo Costa (Curandeiro, Caçador e Padrinho) e Silvana Menezes (K’Temeré, Onça e Milanga).
Essa primeira montagem estreou em 27 de dezembro de 1996, ficando em cartaz ainda nos dias 28 e 29 desse mesmo mês, no antigo Teatro do SESC Santo Amaro (Recife – PE), onde hoje é o Teatro Marco Camarotti. O grupo retornou ao mesmo teatro para uma temporada mais extensa, no período de 01 de junho a 27 de julho de 1997, sempre aos domingos às 10h30.
PUBLICAÇÃO
Em 2007 “O segredo da arca de Trancoso” foi publicada pelas Edições Paulinas, com ilustrações de André Neves, na Coleção “Teatro de Papel”. Neves é recifense e vive atualmente em Santa Catarina. Artista premiado e com trabalho reconhecido internacionalmente, ele também trabalhou como ator e foi um dos idealizadores da coleção “Teatro de Papel”. Para criar as ilustrações do livro – representações de cada um dos personagens da peça – Neves baseou-se em atores e atrizes recifenses, amigos dos tempos em que ainda morava no Recife.
MONTAGEM DO GRUPO VILAVOX – BA
Em 2012 a peça foi montada para Teatro de Rua pelo Grupo Vilavox, com direção de Cláudio Machado e trilha sonora original, com direção musical de Jarbas Bittencourt e direção de arte de Agamenom de Abreu e Cláudio Machado. No elenco, Cláudio Machado, Fred Alvin, Josi Varjão, Gordo Neto, Manu Santiago, Márcia Lima e Ramona Gayão.
O grupo estreou no Sommerwerft Theater Festival em Frankfurt, na Alemanha, nos dias 3, 4 e 5 de agosto de 2012. A estreia oficial no Brasil aconteceu em 03 de setembro de 2012, em uma estrutrura criada para um grande terreno cheio de fruteiras ao lado da “Casa Preta Espaço de Cultura”. A dinâmica da encenação começava com um cortejo musical festivo pelas ruas da Cidade Alta de Salvador, convocando o público até chegar no espaço da apresentação.
A montagem do Vilavox fez várias apresentações na estrutura ao lado da “Casa Preta Espaço de Cultura”, também realizando récitas em outros espaços públicos na Bahia e outros estados, inclusive Pernambuco e São Paulo. Neste último apresentou-se diariamente por uma semana no Parque do Ibirapuera.
Em abril de 2013 a encenação do Vilavox para “O segredo da arca de Trancoso” ganhou o prêmio de Melhor Espetáculo Infanto-Juvenil na 20ª. edição do Prêmio Braskem (Salvador – BA).
Você pode assistir a um belo registro integral da montagem do Vilavox e ver a ficha técnica completa desse trabalho acessando este link:
https://www.youtube.com/watch?v=bwspC-vxAj8
MONTAGEM EM LISBOA – PORTUGAL
Em 2013 aconteceu a temporada da montagem do Teatro Nacional Dona Maria II em Lisboa, com direção de João Mota, um dos fundadores do histórico Grupo Teatro Comuna e, naquela época, também diretor artístico do TNDM. A peça ficou em cartaz na Sala Garrett de 14 de fevereiro a 10 de março, de quarta a sexta às 11h, aos sábados às 21h15 e aos domingos às 16h15. Até 2014 foram feitas’ apresentações em várias cidades portuguesas, como Madeira, Porto Santo e Tondela.
MONTAGEM DA CIA. CÊNICAS DE REPERTÓRIO – RECIFE – PE
Esta montagem estreou no Festival de Teatro para Crianças de Pernambuco no dia 28 de julho de 2018, no Teatro Barreto Júnior, dirigida por Antônio Rodrigues e produzida por sua Companhia Cênicas de Repertório, uma das mais prolíficas daquele período. A peça fez temporada no mesmo teatro em abril e maio de 2019.
MONTAGENS ESTUDANTIS
Colégio Santa Maria (Recife – PE). Realizou duas montagens com alunos do segundo grau, ambas sob a direção de Robson Telles, dramaturgo e Doutor em Letras Robson. A primeira montagem foi apresentada em março de 2003, no teatro do próprio colégio e a segunda em agosto de 2004 no II Festival Estudantil de Teatro e Dança, no Teatro Apolo (Recife – PE).
Oficina de Teatro Para Infância e Juventude (Rio Branco – AC). Produção e direção não identificadas. Apresentação registrada em 17 de dezembro de 2006, no Theatro Hélio Melo.
Oficina de Teatro realizada pela Cia. Olhares de Teatro (Caruaru – PE), com direção de Benício Júnior e Sheila Tavares. Apresentação em 14 de julho de 2012 na Mostra Ruy Limeira Rosal, no teatro do mesmo nome.
Grupo de Teatro Universitário Mossoroense (GRUTUM) da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte. Adaptação com 15 minutos de duração e uso de linguagem de teatro de bonecos, com direção de Nonato Santos. Estreou em 11 de julho de 2014 no auditório do Curso de Música do Campus Central da UERN e posteriormente fez turnê nos campi avançados da mesma instituição.
A versão integral desta peça
estará disponível aqui mesmo, a partir de 05 de outubro de 2026,
quando informaremos a(s) forma(s) de aquisição do texto.
