De todos os bens que adquiri
na vida, a liberdade é aquele
que mais prezo.PERSÉFONE
Sátira inspirada nas narrativas mitológicas ligadas ao rapto de Perséfone. Este é uma adaptação livre do texto utilizado no espetáculo “Hades, o lado noite do amor” (1992).
Movido por uma aposta com Afrodite, Hades arma um plano para raptar Perséfone. Ele não faz ideia da fúria que poderá despertar em Deméter, mãe da jovem, nem das consequências daqueles atos sobre o mundo.
PERSONAGENS
Hades, Afrodite, Arrogância, Vaidade, Cérbero 1, 2 e 3 (as três cabeças do cão guardião do Érebo), Perséfone (deusa das flores, frutos e ervas e da fertilidade), Deméter (deusa da agricultura e da fertilidade), Aretusa (ninfa), Baubo (deusa do ventre, do riso e das obscenidades) e Zeus (deus dos céus, raios e relâmpagos e pai de todos os deuses).
LEIA UMA CENA DA PEÇA
CENA I
Afrodite no Submundo
Luz sobre Hades, que está sentado em um trono, lendo um grande livro. Afrodite entra.
AFRODITE
Estamos de partida.
Serenamente Hades fecha o livro e olha para Afrodite.
HADES
Adeus.
AFRODITE
Grata pela hospitalidade. Minhas amigas gostaram muito de conhecer o seu reino.
Hades deixa o livro sobre o trono e vai até Afrodite.
HADES
Elas já estiveram aqui outras vezes.
AFRODITE
Mas nunca tiveram um cicerone como eu. (Noutro tom) O que estava lendo com tanto interesse?
HADES
Memórias da família.
AFRODITE
E o que procura?
HADES
Nada. Leio porque gosto do tema.
Entram Arrogância e Vaidade.
VAIDADE
Afrodite? Estamos prontas.
ARROGÂNCIA
(Olhando ao redor) Seu reino é impressionante, Hades. Não é um lugar que eu recomendaria a ninguém para viver, mas certamente vale a visita.
HADES
Bom para você. Os mortais não tem essa escolha.
ARROGÂNCIA
O senhor é imortal e também não teve escolha.
Silêncio. Clima.
HADES
Paciência também é algo escasso no meu coração.
AFRODITE
Está tarde, vamos embora. Adeus, soberano. Agradeço mais uma vez.
Hades faz um discreto aceno para Afrodite e volta ao trono, continuando a ler o livro. Afrodite e as amigas se afastam até que uma delas faz sinal para que parem. As três ficam olhando Hades ao longe.
ARROGÂNCIA
Vejam só aqueles chifres.
VAIDADE
Não tem simetria nem elegância. Estão mal cuidados, cheios de lodo e fungos.
AFRODITE
Parem com isso. Não é bom provocar quem está quieto.
ARROGÂNCIA
Mas a feiúra daquele rosto não tem nada de quieta.
VAIDADE
Se bem que aquela feiúra gritante se harmoniza com os chifres.
VAIDADE
E com o restante do corpo também. É uma deformidade atrás da outra.
ARROGÂNCIA
Atrás e na frente.
As três riem, contidas.
AFRODITE
Que maldade, Arrogância.
ARROGÂNCIA
Maldade, nada. Vocês teriam coragem de (cochicha algo)?
VAIDADE
Com ele? De jeito nenhum! Preferiria morrer!
ARROGÂNCIA
E você, Afrodite?
AFRODITE
Acho melhor irmos embora.
VAIDADE
Responda primeiro. Queremos saber.
AFRODITE
Não é uma questão de coragem. É nojo, mesmo. Ele cheira mal.
ARROGÂNCIA
E se ele tomasse um banho?
VAIDADE
Só um?
Riem as três. Hades pigarreia, irritado. Levanta-se e vai até elas.
AFRODITE
Aí vem ele. Vamos embora.
HADES
Não disseram que estavam de partida?
AFRODITE
Estávamos, anfitrião, é verdade, mas tivemos que esperar o final de uma anedota que Arrogância começou a contar.
HADES
Tenho ouvidos sensíveis. O que torna duplamente desagradável a experiência de ouvir meus hóspedes me ridicularizando por ter o aspecto que tenho.
AFRODITE
Não, está enganado, Hades! Foi uma anedota de mulheres, falando sobre homens. Não era sobre você.
VAIDADE
Era a história de um fauno horrível e insaciável que não seduzia ninguém.
ARROGÂNCIA
Malcheiroso, com chifres ridículos.
AFRODITE
Já basta, amigas. Nossas desculpas ao soberano pelo mal entendido. Melhor irmos embora e deixar o soberano descansar.
HADES
(Gritando) Três víboras mentirosas! Ouvi e entendi tudo muito bem.
ARROGÂNCIA
Melhor ir embora. Vaidade?
VAIDADE
Afrodite? Íamos partir, não íamos?
HADES
Vão! (Altivo, contendo-se, respirando forte) Desta vez vou esperar que sumam de uma vez por aquela porta.
As três começam a sair.
HADES
Você adora descer aos meus domínios para sentir a onipotência da sua própria beleza, não é, Afrodite?
Afrodite pára antes de sair de cena. Dá meia volta e encara Hades.
SAIBA MAIS SOBRE “HADES”
Montagens; leitura dramatizada no Rio de Janeiro; como a peça foi criada.
A primeira versão da peça “Hades” estreou em 13 de novembro de 1992, no Teatro Apolo (Recife – PE), com o título “Hades, o lado noite do amor”. Como ainda era comum naquela época em muitas cidades brasileiras, a peça ficou em cartaz de quinta a domingo, às 21h, numa temporada que durou até o final de dezembro do mesmo ano.
Em 29 de outubro de 2009, no Teatro Gláucio Gil (Copacabana, Rio de Janeiro – RJ), a Cia. de Teatro Cordão Encarnado realizou uma leitura dramatizada de “Hades”, com direção de Cláudio Amado. No elenco, Prazeres Barbosa, Alan Pellegrino, Daniela Tibau, Eliane Luna, Gleydson Costa, Joelma Paula, Karine Ordônio, Reginaldo Celestino e Sandro Arieta.
Em 08 de outubro de 2011, estreou no Teatro Maurício de Nassau (Recife – PE) a montagem do Grupo João Teimoso, com direção de Oséas Borba Neto. A peça seguiu em curta temporada no mesmo teatro nos dias 09, 15, 16, 22, 23 e 30 de outubro, sempre as 20h.
A TRAJETÓRIA DA CRIAÇÃO DE “HADES” E “RÉIA”
IDEIA E MONTAGEM DA PEÇA
O texto de “Hades” foi desenvolvido em 1992, a partir de vários desenhos e manuscritos do ator e bailarino Denílson Neves. Encantado com as possibilidades cênicas da cosmogonia greco-romana e com a narrativa do rapto de Perséfone, Denilson estava lendo todos os livros que via sobre o tema, vendo neste um imenso potencial para ousadias cênicas. Ele me convidou para auxiliá-lo com as muitas páginas de ideias que ele vinha produzindo (descrições de cenas, trechos de diálogos, poemas), inspirado pelas personagens e situações em torno daquela mitologia. O que a princípio seria um espetáculo de dança, evocando o clima ritualístico de representações teatrais greco-romanas, foi se tornando uma obra híbrida, à medida em que Denilson propõs a introdução de diálogos dramáticos em alguns momentos do espetáculo. Ficou evidente que ele queria levar ao palco as múltiplas camadas dos atritos em torno da natureza do amor e da relação deste com a aparência física, o sexo e a afetividade. Esse viés me guiou no desenvolvimento dos momentos dialogados, nos quais Hades, Vênus, Réia e Prosérpina desabafavam sobre extremos vividos em suas circunstâncias divinas. Discutiam sobre a essência deles mesmos, assim como nós, humanos, fazemos nos cenários do cotidiano. Denilson moveu céus e terras para erguer a encenação, desenvolvendo figurinos criativos e soluções cênicas surpreendentes, de grande impacto estético. O elenco, escolhido a dedo entre os mais promissores jovens atores e atrizes da época, ensaiou exaustivamente as elaboradas coreografias e marcas da peça.
ESTREIA E REPERCUSSÃO
A peça estreou numa sexta feira 13, em novembro de 1992. Com o próprio Denilson no papel de Hades, a peça ficou em cartaz até o final de dezembro do mesmo ano. Apesar do sucesso de público, a crítica não gostou do resultado final. Os questionamentos giraram basicamente em torno do choque entre o que hoje chamaríamos de “dramaturgias do texto e do corpo”. Parecia que não importavam as tantas e tão incríveis ideias que estavam no palco nem a ousadia de buscar materializar um sonho e aprender naquele trajeto. A crítica da época, tantas vezes sarcástica e impiedosa, foi bastante dura com aquele primeiro e potente trabalho do jovem artista.
REVISANDO A TRAJETÓRIA
Em 1994 perdi todo o material que eu tinha sobre a peça. O texto original da montagem, matérias de jornal, fotos, cópias dos manuscritos de Denilson, cartões com poemas e comentários de amigos, tudo foi destruído por cupins. Algo semelhante ocorreu com os arquivos de texto digitalizadou: a umidade inutilizou os diskettes dos meus backups. Felizmente ainda consegui recuperar um texto anterior ao da montagem, que revisei como um texto à parte da encenação de 1992, já que não se referenciava pelas coreografias originais criadas por Denilson.
Pouco depois da virada do milênio, em 2001, consegui recuperar uma cópia do texto da época da montagem. Naquele momento decidi revisar o que escrevi e adaptar o que fosse necessário, de modo a dar àquele conteúdo uma possibilidade de vida além do formato da encenação para o qual foi criado.
COMO SURGIU O TEXTO “REIA”
Ao retomar o trabalho textual com a peça “Hades”, separei e revisei os dois atos, definindo-os como duas obras distintas, nas quais foram enfatizadas as qualidades mais fortes de cada uma. A primeira obra, que era o antigo primeiro ato, transformou-se num monólogo chamado “Reia”. Mantidos a solenidade e o tom trágico do desabafo da personagem, este texto aborda o desespero materno de Reia diante da ação de Cronos e o posterior embate entre ele e Zeus. A segunda obra, sobre o rocambolesco ciclo do rapto de Perséfone, continuou com o título “Hades”, que resolvi adaptar e expandir, evitando quaisquer tons hieráticos que ainda subsistissem ali, acrescentando cenas e recriando diálogos mais leves e dinâmicos, abraçando de vez as feições de um melodrama satírico com várias intervenções cômicas, num contraponto radical com a abordagem do primeiro ato.
Mais recentemente, em 2024, ao fazer uma revisão geral das peças que escrevi até hoje, tomei um choque ao me dar conta de que, embora já separados, os textos de “Réia” e “Hades”, por terem nascido como um, ainda traziam contaminações recíprocas. O primeiro ato não abraçava a tragédia com a força que poderia ter. O segundo ato mantinha alguns trechos pomposos que truncavam o tom satírico. Ter essa consciência ajudou a fazer novas alterações na maioria dos diálogos e a visualizar melhor as personalidades e motivações de cada personagem. Dessa maneira, os textos de “Reia” e “Hades” puderam, enfim, trinta e dois anos depois de criados, ganhar uma imagem mais fiel ao modo como aquelas histórias e personagens sempre me tocaram.
A versão integral desta peça
estará disponível aqui mesmo, a partir de 05 de outubro de 2026,
quando informaremos a(s) forma(s) de aquisição do texto.
