“Mito ou mentira?” é o título do espetáculo do Grupo Cênico Arteatro criado em 1989, reunindo três peças independentes entre si, mas similares na ideia de imaginar personagens míticos vivendo na atualidade. Os esquetes originalmente eram: o drama expressionista “Nunc et in hora mortis nostrae”, de Tchello Intarsiato, o drama cômico “Visita mortal” e a comédia satírica “Que seja inferno enquanto dure”, ambos de Luiz Felipe Botelho. Complementando a peça, havia cinco textos monologados de um mestre de cerimônias mascarado chamado “Você”. Ele apresentava e concluía o espetáculo, fazendo também introduções específicas de cada peça. A cada entrada “Você” tirava uma máscara diante do público, revelando uma outra por baixo, como se nunca fosse possível à plateia ver o rosto real daquele ator.
Sobre o conteúdo das peças: em “Nunc et in hora mortis nostrae”, três keres atormentam uma família para conseguir seduzir um adolescente; “Visita mortal” mostra a ceifadora tentando evitar usar a força para levar mais uma alma; e, finalmente, “Que seja inferno enquanto dure”, aborda um golpe de Estado no Inferno, articulado por humanos piores que demônios. Posteriomente, para reforçar o caráter cômico da encenação como um todo, o texto de Intarsiato foi substituído pela comédia satírica “Caninos cariados” de Botelho, sobre um jovem vampiro que se recusa a beber sangue.
LEIA UMA CENA DA PEÇA
Íntegra das falas do personagem “Você”
PRÓLOGO
O personagem Você está permanentemente mascarado. Em momentos estratégicos da peça removerá a máscara que usa; revelando uma outra por sob a anterior, como uma segunda pele, que será usada por mais um tempo. Ao trocar de máscara, Você se transforma por inteiro, voz, gestos, intenções, como se um outro personagem passasse a habitar naquele corpo
VOCÊ
Boa noite, senhoras e senhores. Sejais bem vindos a este insólito espetáculo, carinhosamente preparado para vosso deleite. Concedei-me, porém, a permissão para que antes me apresente: meu nome é Você. Não, não é uma brincadeira atrevida e inconseqüente, mas um recurso necessário ao efeito que se quer obter desta encenação. Um artifício que o autor usou para homenagear o público e, ao mesmo tempo, trazer a todos vós para mais perto da magia do palco. A máscara que uso vos incomoda? (Dependendo da reação da platéia; duas respostas básicas podem ser dadas: “Ora, não há motivo para tanto” ou “Que ótimo”) Aproveitarei para falar da minha relação com este objeto que, para muitos, simboliza o próprio teatro. Uso esta máscara por não saber exatamente quem sou. Podeis imaginar como é insuportável não se ter uma identidade, não se saber quem se é. Por isso vou vivendo personagens variados ao longo da minha jornada através do universo, até o dia em que eu descubra finalmente quem sou e não precise mais usar máscaras. Por falar niso, já me cansei desta. Já aprendi tudo o que podia com ela. Com licença. (Remove a máscara, revelando a que estava por baixo e mudando o tom da conversa com a platéia) Bem, prossigamos. Nosso espetáculo vos conduzirá a três situações diferentes, onde conheceremos três exemplos distintos de uma mesma e atemporal verdade: o Mito. Mas, perguntarei vós, não será o Mito uma ilusão, mentira, fantasia? Ora, toda fantasia nasceu de alguma realidade e toda mentira esconde um fato que parece tê-la provocado. Bem, não estou aqui para vos atormentar a mente com semelhantes elucubrações. Partamos sem tardança para a primeira estação da nossa viagem mitológica, revendo antigos temores à luz dos tempos do agora! Deixemos que quaisquer conclusões venham por si mesmas, dentro de cada um de vós, quando assim tiver que ser.
Sai de cena.
INTRODUÇÃO DE “CANINOS CARIADOS”
VOCÊ
(Com outra máscara; diferente do Prólogo) Desde que surgiu na Terra, o ser humano sempre mostrou-se um tanto contraditório. Tão contraditório que, até hoje, é a principal vítima de suas próprias contradições. Em dado momento da história, houve até quem dissesse que a tarefa de procurar compreender a si mesmo era tão complexa que poderia ser comparada aos Doze Trabalhos de Hércules. Mas, existirá o poder de um Hércules dentro de cada um de nós, capaz tanto de nos libertar quanto de nos aprisionar? É óbvio que a resposta não é simples. O fato é que foi justamente essa dificuldade de desvendar nossos mistérios interiores que levou a cada homem e mulher deste planeta a se perguntar que forças eram aquelas que vislumbravam dentro de si. Aquele poder que viam, ele realmente lhes pertencia ou era apenas sonho? Ou seria, talvez, o fruto de influências externas, resultado da ação de espíritos malignos e benignos que lutavam invisivelmente pela posse de cada indivíduo humano, de seus corpos, de sua energia, de sua sexualidade. Afinal, era bem menos complicado e doloroso acreditar na influência maléfica de duendes, vampiros, íncubos e súcubos, do que tentar entender a infinita extensão e profunda complexidade de tudo o que habita no âmago de cada criatura. De um modo ou de outro, crendo ou não nisto que vos falo, a humanidade vem seguindo sua trajetória na Terra, equilibrando-se numa fina linha que divide dois abismos: a Estagnação e a Loucura…
Sai de cena.
INTRODUÇÃO DE “VISITA MORTAL”
VOCÊ
No princípio era treva, a escuridão. E Deus disse: “Faça-se a luz!” Contam que foi assim que aconteceu no começo de tudo. E no final? Como será? Mais luz? Ou novamente a escuridão? Não, meus queridos, não vos impressioneis com aspectos tão primários da realidade. Deveis lembrar que o Universo vive de ciclos, de opostos que se complementam com divina exatidão. E o caso do dia e da noite, do positivo e do negativo, do yin e do yang, da vida e da morte. Nada mais natural, então, que, até. mesmos nós, um dia voltemos à treva para nos prepararmos para um novo cíclo de luz. É tudo muito evidente, não é mesmo? Nem tanto. Se fosse tão evidente assim, não teriamos tanto medo de morrer… nem de viver, também. Sim, porque tudo o que é desconhecido nos assusta, .principalmente se for algo do qual não podemos fugir. Ah, medo, desconhecido, fuga, (solta o ar, como se entregasse os pontos às evidências, enquanto principia a sair de cena) o que é que podemos fazer com a nossa doce e amarga ignorância?
Sai de cena
INTRODUÇÃO DE “QUE SEJA INFERNO ENQUANTO DURE”
VOCÊ
Está escrito em obras milenares que cada ser humano deve buscar a purificação constante e progressiva de sua consciência. Esses textos dizem, ainda, que cada homem e mulher deverá cultivar dentro de si valores elevados, sentimentos nobres e pensamentos iluminados. Tudo isso é maravilhoso, mas, nem todos nós temos a capacidade de compreender estas verdades. Porque é comum acontecer de escorregarmos e caírmos justamente no extremo oposto, não é mesmo? Sendo assim, ocorre-me de imediato uma dúvida pertubadora: seria justo recriminar aqueles que escorregam e caem na treva? Seria justo interpretar como castigo o sofrimento daqueles que não sabem abrir os olhos para ver a luz? Não, não, não senhores. Não alimentem falsas expectativas quanto a minha sapiência, porque eu também não sei responder a tais perguntas. Quer dizer, ainda não sei respondê-las… (Toma fôlego, troca a máscara e, com um outro colorido interior retoma sua fala) É possível que há dez mil anos, algum grupo de pessoas estivesse reunido como nós estamos agora, fazendo as mesmas perguntas que fiz ainda a pouco. É igualmente possível que as dúvidas daqueles indivíduos, apreensivos para decifrar os mistérios do bem e do mal, tenham sido a semente que os levou a imaginar a existência de um estranho e aterrorizante lugar, no qual eram lançadas, para toda a eternidade, aquelas almas que, por alguma razão, viveram suas vidas perdendo-se na imensidão de cada reencontro consigo mesmas…
Sai de cena.
EPÍLOGO
VOCÊ
Senhoras e senhores, nada mais tenho a vos dizer, a não ser agradecer-vos a presença e desejar que o que aqui vivenciastes tenha-vos acrescentado algo de bom. E quando quiserdes retornar a este lugar mágico, não vos acanheis. Lembrai-vos sempre que o Teatro é a casa de todos vós. Boa noite.
Blecaute final.
SAIBA MAIS SOBRE “MITO OU MENTIRA”
Você pode encontrar informações específicas e trechos de cada uma das três peças de Luiz Felipe Botelho e que compuseram o espetáculo “Mito ou mentira?” clicando nos títulos a seguir:
CANINOS CARIADOS
VISITA MORTAL
QUE SEJA INFERNO ENQUANTO DURE
ÍNTEGRA DAS FALAS DE INTRODUÇÃO E CONCLUSÃO – PERSONAGEM “VOCÊ”
“Mito ou mentira?” foi a segunda montagem do Grupo Cênico Arteatro e a primeira produzida com material original criado a partir de atividades desenvolvidas por todos os integrantes em torno de um mesmo tema. A ideia geral de abordar antigos mitos com um olhar atual veio de um questionamento sobre o significado dos mitos. Considerando que tendemos a inventar histórias para explicar para o que não conseguimos elaborar em nós mesmos, o grupo se perguntou até que ponto os mitos são mesmo mentiras ou apenas uma provocação para nos levar à verdade sobre nós mesmos. Com essa provocação, todos os membros do Arteatro se lançaram a buscar candidatos para serem os protagonistas das três histórias que contaríamos no espetáculo. Na votação resultante dessa busca, os personagens míticos vencedores foram os vampiros, os demônios e a Morte, nessa ordem.
Embora os três textos previstos tivessem inicialmente três autores (Tchello Intarsiato, Luiz Felipe Botelho e Carlos Salles), Salles desistiu da escrita de “Que seja inferno enquanto dure”, propondo que Botelho também escrevesse aquela peça. Este tanto aceitou a proposta quanto acrescentou o personagem “Você” como uma espécie de apresentador misterioso de cada ato do espetáculo.
“Mito ou mentira?” estreou em 09 de setembro de 1989, no Teatro Joaquim Cardozo, com produção do Grupo Cênico Arteatro. Ficou em cartaz até 29 de outubro do mesmo ano, aos sábados e domingos, 21h. De 18 de novembro a 17 de dezembro, também aos sábados e domingos, ficou em cartaz no Teatro do Parque. Através de um projeto de circulação chamado “Vamos comer teatro – ano VII” (de que órgao?) a montagem fez apresentações pelo interior de Pernambuco, nas cidades de Arcoverde (Teatro do SESC, atual Teatro Geraldo Barros em 04 e 05/11/89), Belo Jardim (Teatro da Fusbeja, em 11 e 12/11/89) e São Caetano (Sede Musical Olindino Quintino, dias 03 e 04/02/90).
“Mito ou mentira?” participou do Festival de Teatro de Bolso 1989 (TEBO), promovido pela Fundação de Cultura Cidade do Recife, tendo recebido indicações para Melhor Espetáculo, Direção (Carlos Salles), Ator (Carlos Ataíde, Newton Moreno e Williams Santana) e prêmio de Melhor Atriz para Ana Cecília.
Enéas Alvarez, poeta, ator e jornalista, que tinha uma coluna regular sobre artes cênicas no Jornal do Commercio, incluiu “Mito ou mentira?” na sua lista anual dos cinco melhores espetáculos de 1989.
A versão integral desta peça
estará disponível aqui mesmo, a partir de 05 de outubro de 2026,
quando informaremos a(s) forma(s) de aquisição do texto.
