Cubra-se, Eva,
estou mandando!
Esconderemos tudo o que perturba.
Sabe-se lá o tamanho do mal
que mora dentro de nós?SOMBRA-DE-EVA
Drama em dois atos com 33 cenas e um epílogo (versão das montagens de 1991 e 1992); com um ato único e 23 cenas (versão da montagem de 1997) e em dois atos e 32 cenas (versão revisada decorrente de reflexões sobre a montagem de 1997). Releitura da narrativa mítica da criação da humanidade a partir da inclusão da figura de Lilith, atravessando os tempos até os dias atuais.
RESUMO
O medo de perder suas liberdades individuais leva os apaixonados Adão e Lilith a separar-se dolorosa e irremediavelmente, desencadeando uma série de situações que definiriam a história da humanidade para sempre.
PERSONAGENS da versão usada em 1991 e 1992
Anciã; Adão; Lilith; elementais do Fogo, Água, Terra e Ar; Eva; Sombra-de-Adão; Sombra-de-Eva; Rangda (sem falas); Mãe; Bruxa; Viajantes 1 e 2; Sereia (Lorelei); Mulher (Inquisição); Inquisidor; Condessa; Irmãs religiosas 1 e 2; Homem-de-Gelo; Estudantes 1 e 2; Médico; Enfermeira; Adamastor (voz); Pessoas 1 e 2.
PERSONAGENS da versão usada em 1997 e da que foi revista em 1998
Anciã; Adão; Lilith; elementais do Fogo, Água, Terra e Ar; Eva; Sombra-de-Adão; Sombra-de-Eva; Rangda (sem falas); Bruxa; Sereia; Feiticeira; Inquisidor; Condessa; Homem-de-Gelo; Médico.
LEIA UMA CENA DA PEÇA
Cena VII
Luz na Arena. Lilith entra radiante e encontra Adão,
LILITH
Adão! Olha isso aqui!
Mal Adão vê sangue nas mãos de Lilith e já corre para buscar folhas. Lilith ri.
LILITH
Espera! Não estou ferida!
Adão traz as folhas, mas não localiza o ferimento nas mãos de Lilith.
ADÃO
Onde está? De onde vem o sangue?
LILITH
(Mostrando o próprio sexo) Daqui.
ADÃO
(Confuso) O que foi que você fez?
LILITH
Nada. (Maravilhada) Começou a sair de dentro de mim. (Notando a perplexidade de Adão) Adão, é um sinal. Um aviso de Yaveh. Estou pronta para ter filhos!
Adão permanece em silêncio.
LILITH
É a vida. Adão, Pai. Lilith, Mãe.
ADÃO
Eu? Pai? (Insistindo, tentando atinar para o sentido de tudo aquilo) Pai?
LILITH
Pai. Criador.
ADÃO
Como Yaveh? (Desiludindo-se) Não posso, Lilith.
LILITH
Pode.
ADÃO
Eu nunca sangrei assim. (Lilith acha graça) Como vou ser pai sem sangrar?
LILITH
Não precisa. O sangue é coisa de Lilith. É a casa da vida se preparando aqui dentro. A semente é coisa de Adão. (Toca no sexo de Adão) A semente vai sair do lingam e entrar em Lilith. (Acariciando o próprio ventre) Aqui tudo se mistura. Uma criatura surgirá. Aqui, está vendo, pegue. (Ele toca. Está assustado) E quando estiver pronta sairá por…
Subitamente Adão sai correndo para o alto do Monte. Lilith vai atrás dele.
ADÃO
(Encolhido) Vá embora.
LILITH
Adão precisa de ajuda.
ADÃO
Quero ficar só.
LILITH
Não tenha medo de Lilith.
ADÃO
(Grita) Sai daqui!
Lilith se assusta e recua. Hesita em ir ou ficar. Tenta mais uma aproximação.
LILITH
Nem carinho? Eu sei que está doendo.
Adão não se mexe. Quando Lilith começa a ir embora ele estende a mão pedindo ajuda. Ela vai até ele e o acolhe em seu colo.
ADÃO
O que Yaveh quer de mim? Por que ele não diz? Para você tudo parece tão fácil. Até carrega o próprio mistério da criação dentro de si.
LILITH
Adão também tem mistérios. (Toca-lhe o sexo…) Aqui, (…o ventre…) aqui, (…o coração…) aqui, (…a cabeça…) aqui, (…e beija-lhe a boca delicadamente) aqui.
ADÃO
Mistérios que eu não compreendo.LILITH
Um dia compreenderá.
SAIBA MAIS SOBRE “LEMBREM-SE DE LILITH“
ORIGEM
“Lembrem-se de Lilith!”, a exemplo dos textos de “Mito ou mentira?”, também nasceu no âmbito das atividades do Grupo Cênico Arteatro. O interesse pelo tema veio de uma palestra ministrada pela escritora Rosa Terezinha Bonini de Araújo sobre o livro dela “A mulher no século XXI – O resgate da Lilith”. O impacto no grupo foi imediato pois, até então, pouco sabíamos do mito de Lilith ou dos motivos que faziam dessa personagem uma referência tão importante para analisar nossos tempos. Estava ali uma oportunidade de poder conhecer melhor as origens e razões da existência das versões demonizadas de arquétipos femininos.
Num processo semelhante ao de “Mito ou mentira”, o grupo se mobilizou em busca de mais informações, num tempo em que ainda não se podia contar com a internet como um auxílio à pesquisa. A ideia era identificar temas centrais que pudessem alimentar a escritura de uma peça. Isso foi obtido a partir de duas obras que, com uma análise histórica acurada, só reforçaram nosso encantamento pelo tema dos conflitos entre o masculino e o feminino através dos tempos: “Lilith, a Lua Negra”, de Roberto Sicuteri e “O casamento do Sol com a Lua”, de Raïssa Cavalcanti.
Foi elaborada uma sinopse que propunha os quatro personagens centrais atravessando os tempos como se não fossem afetadas por isso. Assim, depois de cenas detalhando o mito original no cenário do Éden, viriam outros momentos que pontuariam eventos históricos que o grupo considerou mais interessantes para ilustrar o que estávamos construindo. As cenas foram criadas, tanto a partir de esboços de esquetes quanto através de exercícios de improvisação com focos específicos.
PRIMEIRAS APRESENTAÇÕES
“Lembrem-se de Lilith!” estreou no dia 8 de março de 1991, Dia Internacional da Mulher, com o Teatro Apolo lotado. Isso já era esperado por conta da nudez do elenco, entre 19 e 31 anos de idade. O boca a boca antecedeu a estreia da peça, pela expectativa que foi naturalmente sendo construída ao longo dos exatos nove meses, desde a escolha do tema até aquela primeira apresentação.
A NUDEZ EM “LEMBREM-SE DE LILITH!”
Desde que o Grupo Cênico Arteatro se apaixonou pela ideia de criar uma peça sobre Lilith, havia a consciência de que, para que nossa narrativa fizesse sentido, as cenas no Paraíso – quase um terço da peça – aconteceriam com o elenco nu. Muitos dos aspectos da opressão e demonização do feminino passam até hoje pela hipersexualização dos corpos de ambos os sexos e isso teria que ser desmistificado na própria atitude dos personagens em cena. Apesar da maioria do elenco ter se empolgado com a proposta, meu receio era de que a nudez – fosse por qualquer desconforto do elenco ou por reações imprevistas da plateia – viesse a tirar o foco dos assuntos que seriam abordados ou, pior, corroborar a nudez como algo vinculado à sombra e à malícia humanas. Francis de Souza (que viria a interpretar a própria Lilith) e Méri Lins (que faria a Eva dos tempos atuais) ponderaram que, se o elenco não se importasse com o fato de estar nu, a plateia também não se importaria. Francis, que também é figurinista, usou uma frase que resumia a atitude que precisava ser exercitada: “quando estou nua, estou vestida com meu corpo”. Esse foi o mote para um único laboratório em busca dessa condição. A lição da frase de Francis reverberou com tanta força que, no final daquele laboratório, elenco e técnica estavam nus e em paz com seus corpos e consigo mesmos. Posteriormente, durante as temporadas, foi gratificante ouvir os muitos depoimentos das plateias que se referiam a uma qualidade da nudez do elenco: inocência.
AS TRÊS MONTAGENS DO GRUPO CÊNICO ARTEATRO
A primeira montagem de “Lembrem-se de Lilith!” pelo Arteatro ficou em cartaz em 1991 e 1992, cumprindo quatro temporadas nos Teatros Apolo e Barreto Júnior, de quinta a domingo em 1991 e de sexta a domingo em 1992, num total de ??? apresentações e um público total de ??? espectadores. Ao final de 1991 e com a proposta de continuar com as apresentações no ano seguinte, parte do elenco teve que ser substituído e alguns ajustes no espetáculo foram feitos, visando reduzir o tempo de cada apresentação e simplificar a estrutura cênica. Durante o ciclo dessas duas montagens, o espetáculo se apresentou em Caruaru (PE) e Garanhuns (PE), respectivamente no Teatro João Lira Filho nos dias 5, 6 e 7 de julho de 1991 e no Teatro do Centro Cultural em 6 e 7 de julho de 1992.
Uma terceira montagem estreou em 10 de outubro de 1997, ficando em temporada até dezembro daquele mesmo ano no Teatro Barreto Júnior, com parte do elenco das montagens anteriores e produção do Grupo Cênico Arteatro e da Refletores Produções. Em 11 de janeiro de 1998 se apresentou no festival “Janeiro de Grandes Espetáculos”, só retornando para uma nova temporada em 24 de julho de 1998, no Teatro Apolo, onde permaneceu até o final de setembro daquele ano. A última apresentação dessa montagem aconteceu em 24 de janeiro de 1999, na mostra “Todos Verão Teatro”.
PREMIAÇÃO
Na premiação anual do SATED/FETEAPE 1991, a primeira montagem de “Lembrem-se de Lilith!” recebeu os troféus de Revelação e Melhor Cenografia, ambos para Luiz Felipe Botelho.
MONTAGEM EM BRASÍLIA
Em 29 e 30 de março de 2002, na Sala Martins Pena do Teatro Nacional de Brasília, com direção de Nivaldo Ramos e realização do Centro de Alquimia de Produção Cultural.
VERSÕES DO TEXTO
Houve pelo -5 versões do texto desta peça que chegaram a ser usados em leituras e ensaios. Os três que menciono aqui no site são, respectivamente, o das montagens do Arteatro (1991 e 1992); o da montagem do GCA em parceria com a Refletores Produções (1997/1999) e o que foi resultado de uma nova revisão textual feita em 1998.
As modificações que fiz na segunda versão mencionada acima decorreram de conclusões que tirei a partir da crítica do jornalista Alexandre Figueiroa (Jornal do Comércio, 12 de março de 1992) intitulada “Lilith: erro e acerto”. A princípio a crítica me irritou pelo tom de ironia e deboche que entremeava observações interessantes e ressalvas pertinentes. Passada a raiva, ponderei sobre as observações de Figueiroa e conclui que algumas alterações poderiam realmente contribuir para que a obra ganhasse mais foco e força, dando uma unidade estética mais próxima do que então se consideraria um teatro elogiável. Observando hoje, na distância do tempo, me surpreendo em descobrir que gosto da fragmentação da narrativa e do humor às vezes grotesco de algumas cenas que se chocava com a delicadeza de outras. Entendo que a estrutura poderia ter funcionado bem melhor se, naquela época, eu tivesse uma noção mais nítida do que eu estava entrevendo como jogo de possibilidades cênicas, afinal, tratava-se de saber equilibrar uma contraposição de temperos fortes e delicados em cenas que, num panorama mais amplo, deveriam se integrar como aspectos distintos de uma mesma história. Curiosamente, um ano antes, em 15 de junho de 1991, no mesmo Jornal do Comércio (“Lilith: um trajeto denso e sedutor”) o dramaturgo Rubem Rocha Filho tinha elogiado a montagem justamente por reconhecer que havia no texto uma urdidura integrando as partes. E penso: ainda que a ideia precisasse de mais burilamento, Rocha Filho percebeu que havia ali algo de ousado e interessante.
Quanto à versão de janeiro de 1998, ela foi revisada sobretudo na construção das falas e rubricas, procurando deixar as ações mais evidentes para o leitor, compartilhando as imagens que visualizo quando o gestual deve complementar algo que o texto não explicita (ou complementa), notadamente a maior parte das primeiras vivências de Adão e Lilith no Paraíso.
A versão integral desta peça
estará disponível aqui mesmo, a partir de 05 de outubro de 2026,
quando informaremos a(s) forma(s) de aquisição do texto.
