Janos Adler

O que fariam os médicos se as
pessoas nunca adoecessem?
Interessa-lhes, realmente,
encontrar uma cura definitiva
para os males do mundo?

JANOS ADLER

Drama em ato único e 19 cenas sobre a hipocrisia por trás das convenções sociais. Drama sobre a fragilidade das máscaras do poder usadas no cotidiano.

RESUMO
Jovem aristocrata com doença incurável é internado em hospital mantido por uma ordem religiosa. Mesmo debilitado, o rapaz tumultua o cotidiano daquela instituição, questionando toda sorte de dogmas e comportamentos da sociedade daquela época.

PERSONAGENS
Janos Adler; Espectro de Janos; Niels Kümmel, o general; os irmãos Gerber e Franz Jürgen-Fritz; Karl Wolffenheim, mentor do general; taberneira Frieda Müller; Johansson Kümmel, irmão do general; as três parcas: Cloto (a fiandeira), Láquesis (a medidora) e Átropos (a cortadeira); as irmãs religiosas Gretel, Karen, Louise, Lotte e Christine; o Médico; Hupert, o aprendiz; Madre Superiora; Peter Goldmund, o advogado; Witolds Nibbels, o especialista; Homem.

LEIA UMA CENA DA PEÇA

JANOS ADLER
Cena I – Casa de campo de Niels Kümmel

Um ruído.

JANOS
O que foi isso?

NIELS
O que?

JANOS
Um barulho. Não ouviu?

NIELS
(Tomando o último gole de uma taça de vinho) É o vento nas janelas.

JANOS
(Suspira) Tive a impressão de que havia mais alguém por aqui.

NIELS
(Sorrindo) Fantasmas. Este lugar tem duzentos e cinquenta anos.

JANOS
Estou falando de gente viva.

NIELS
Dispensei os criados logo cedo. Estamos sós. Nós e Deus.

JANOS
Então não estamos sós. (Num gole, também esvazia sua taça de vinho)

NIELS
A essa hora Deus deve estar dormindo.

JANOS
Ele nunca dorme. Vive nos espiando noite e dia.

NIELS
Você tem medo?

JANOS
De Deus?

NIELS
Desta situação.

JANOS
Os riscos são grandes.

NIELS
Os riscos me excitam.

JANOS
Não sente medo?

NIELS
Não tenho medo de nada.

Niels joga longe a taça vazia e olha para Janos.

JANOS
Você está diferente.

NIELS
Estou? (Pega a taça vazia que está com Janos)

JANOS
Não parece o mesmo de quando cavalgamos até aqui. Desde que chegamos tenta parecer confiante, me deixar à vontade, mas não consegue disfarçar o desconforto.

Niels fica sério e desvia o olhar. Janos toca-lhe o rosto com carinho.

JANOS
Olhe para mim, General. 

Niels olha para janos

JANOS
Está arrependido?

NIELS
Nunca me arrependo do que faço.

JANOS
Prove.

Niels joga longe a taça de janos e sorri.

JANOS
Onde está a excitação que você disse que sentia quando se colocava em risco?

NIELS
(Pega a mão de janos e a traz para que toque seu sexo) Aqui.

JANOS
Então, estamos perdendo tempo, General.

Janos abraça niels, que se atrapalha no abraço.

JANOS
Não. Assim incomoda. Ajuste melhor o braço. Aqui, assim.

Niels se inquieta.

JANOS
Calma. Vá devagar. Dá para ficar bem mais gostoso. Vê como fica bem encaixado? Está sentindo?

NIELS
Estou.

Niels se aconchega em Janos.

NIELS
É muito bom.

JANOS
Você nunca abraçou ninguém?

NIELS
Nunca abracei um homem.

JANOS
E o seu pai?

NIELS
Nem ele. Homem nenhum.

JANOS
Falta de desejo é que não foi.

NIELS
Falta de oportunidade.

JANOS
Então eu sou sua oportunidade de saciar desejos escondidos.

NIELS
Pensei que estávamos falando de um abraço.

JANOS
Este abraço aqui é só o começo de outras coisas que você também deseja.

NIELS
Se você não tivesse deixado claro que também queria isso, eu não teria vindo.

JANOS
Eu sei.

NIELS
(Ri) Imagine o que aconteceria se nossos amigos descobrissem…

JANOS
Será que vão desconfiar? Todos viram que saímos juntos.

NIELS
Amigos costumam sair juntos para beber.

Janos olha ao redor.

NIELS
(Desfazendo o abraço e olhando em volta) O que foi, Janos?

JANOS
(Encarando Niels) General, ninguém mais deve saber o que está acontecendo aqui.

NIELS
Não direi nada.

A respiração de Niels é forte e audível.

SAIBA MAIS SOBRE “JANOS ADLER”

Origem, premiação, publicação, montagens.

Até hoje “Janos Adler” foi minha única peça que nasceu de um sonho que tive. Foi um sonho nítido, daqueles realistas que a gente acorda chorando, quase sem acreditar que estava sonhando. A experiência foi tão forte que não sosseguei enquanto não comecei a colocar no papel a cena que vivi. O restante da peça foi surgindo aos poucos e o processo foi tão forte que cheguei a consultar amigos espiritualistas sobre se aquilo não seriam registros de uma vida passada. A primeira versão de “Janos Adler” foi escrita em três dias. Posteriormente fiz várias revisões buscando eliminar as cascas dos meus receios de lidar com temas tão duros, até chegar na forma atual. Pessoalmente fico feliz em ver que a essência do conteúdo não foi alterada – ao contrário, ficou mais nítida, a exemplo do trabalho que também fiz com a peça “Hades” (ver aqui). Quanto ao trecho do sonho que sonhei, ele pode ser visto em tudo o que acontece a partir da chegada de Irmã Christine na penúltima cena até a cena seguinte, depois que Janos contempla a catedral ao longe.

No 1.o Festival Nacional de Dramaturgia promovido pela Fundação Banco do Brasil (FBB) e Fundação Brasileira de Teatro (FBT), “Janos Adler” compartilhou o terceiro lugar com a peça “Works and Exercises” de Hermann Schumann (Euclides Dutra de Moraes), num certame que contou com 363 inscritos de todo o país. Antes da divulgação desse resultado, uma mulher que se identificou como sendo da FBT ligou para minha casa no final da tarde e me informou que a peça tinha ganho o primeiro lugar. Na mesma semana recebi um telegrama em nome de José Maria Bezerra Paiva, presidente da Comissão Julgadora, comunicando a mesma informação. Dias depois, um outro representante da FBT me telefonou pedindo desculpas e informando que ocorrera um equívoco: o quadro de premiação era outro. Indignado e desorientado, enviei imediatamente uma carta (09/09/92) pedindo explicações à FBT. Dez dias depois, sem obter respostas, enviei nova carta (21/09/92). Em 29/09/92 Bezerra Paiva enviou memorando desculpando-se pelo acontecido, justificando o que aconteceu como fruto de uma série de problemas internos e de um momento político conturbado em Brasília (impeachment de Fernando Collor), onde ficava a sede da FBT. Ainda surpreso e descontente com o modo como tudo foi conduzido, também reconheci ali a mesma dinâmica que só expunha a fragilidade de muitas das iniciativas no campo da Arte e da Cultura em nosso país. Agradeci e aceitei as desculpas por escrito (08/10/92). Na época, esse equívoco da premiação foi divulgado em Recife (PE) pelo Jornal do Commercio em matéria escrita por João Luiz Vieira e publicada em 25/10/92. Em 1994, como parte dessa mesma premiação, “Janos Adler” foi publicada em 1994 pelas FBT e FBB (Brasília – DF).

A primeira montagem de “Janos Adler” foi de José Manoel Sobrinho. A peça estreou em 19 de dezembro de 1992, na sala “Mirante do Capibaribe”, no edifício da Fundação Joaquim Nabuco (Derby, Recife – PE). A encenação era a prova pública de uma das turmas do Curso Básico à Formação do Ator da Fundaj. Foram cinco apresentações para um público de 60 pessoas em cada sessão. Para aproveitar ao máximo a planta e as amplas dimensões da sala, José Manoel optou por um formato de arena quadrangular, o que norteou a adaptação técnica daquele espaço para acolher a montagem. A plateia ficava em cadeiras encostadas nas quatro paredes, enquanto toda a ação acontecia no espaço central daquele grande quadrado, com refletores colocados em pontos estratégicos entre algumas das cadeiras da plateia. O espaço cênico era coberto por um grosso plástico transparente e coberto por argila úmida. À medida em que as cenas transcorriam, mais água era adicionada ao espaço, amolecendo e dissolvendo a argila. Esse material passava a fazer parte da própria ação em vários instantes, possibilitando tanto momentos de grande beleza plástica quanto uma leitura poética e contundente dos conflitos apresentados.

Em 1995, “Janos Adler” foi montada em Brasilia (DF), com direção de Nivaldo Ramos e produção do grupo da Fundação Brasileira de Teatro, cumprindo temporada de 13 de janeiro a 05 de fevereiro no Teatro Dulcina, de sexta a domingo.

A versão integral desta peça
estará disponível aqui mesmo, a partir de 05 de outubro de 2026,
quando informaremos a(s) forma(s) de aquisição do texto.

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