Para sempre não existe

E naquele dia eu descobri
como é fácil ser hipócrita
quando nossos próprios interesses
estão em jogo.

NÉLSON

Drama intimista em quatro cenas, sobre suposto mistério familiar, evocando o universo das histórias do escritor e dramaturgo brasileiro Nélson Rodrigues (1912-1980).

RESUMO
A aristocrática Senhora Áurea perdeu a visão num acidente de automóvel. Ela ama livros. Contratou um jovem repórter jornalístico para ler romances para ela. Mas, a Senhora Áurea não é uma pessoa como as outras. A governanta Rosa sabe disso, mas mantem o segredo. As leituras se sucedem, o tempo passa e os segredos sucumbem à ação do tempo.

PERSONAGENS
Três (para 3 atores). Nélson, jovem repórter jornalístico; Áurea, mulher cega, elegante e misteriosa; Rosa, governanta de Áurea.

LEIA UMA CENA DA PEÇA

Cena I

Sons de música clássica numa vitrola. Entra Nélson.

NÉLSON
(As falas no futuro podem ser dadas em off ou não, dependendo da concepção do encenador) Foi fácil chegar até ela. Usei o nome de tia Dionéia como ponte. Inventei que andava querendo ajudar ao meu próximo. Isso funcionava muito bem, antigamente. 

A luz revela Áurea numa poltrona, ouvindo os sons de um disco na vitrola. Entra a governanta.

ROSA
O rapaz enviado por Dona Dionéia está aí. 

ÁUREA
Ai, inferno! Que invenção de Dionéia. (Suspira) Paciência. Mande-o entrar. 

A governanta traz Nélson atéÁurea.

NÉLSON
(Gaguejante) Boa tarde. 

ÁUREA
Boa tarde. 

ROSA
Sente-se aqui, por favor. 

ÁUREA
Obrigada, Rosa. 

ROSA
Com licença. (Sai) 

NÉLSON
Bom, eu sou o… 

ÁUREA
Nélson! Eu tenho boa memória. 

NÉLSON
E você é Áurea. Também não esqueci… Eu trouxe alguns livros, aqui. Dona Dionéia disse que você gostava de clássicos… 

ÁUREA
Gosto de tudo o que seja bom. O que você trouxe? 

NÉLSON
Olha, eu não sabia quais você já leu, por isso trouxe os que eu mais gostava.., o “Dom Quixote”… 

ÁUREA
Já li. Mas faz tanto tempo… nem me lembro mais se ele chegava a vencer os moinhos… 

NÉLSON
Trouxe o “Grande Sertão: Veredas’ do Guimarães Ro… 

ÁUREA
Desse eu lembro perfeitamente… Mas não importa. Foi outra boa escolha. 

NÉL.SON
Tomara que esse aqui você não tenha lido, porque… 

ÁUREA
Você mora na capital, não é? 

NÉLSON
É. Moro, sim. Por que? 

ÁUREA
Nada. Acho estranho alguém resolver fazer caridade tão longe. Não há cegos lá na capital? 

Nélson desconcerta-se.

ÁUREA
Desculpe, eu não quis ser grosseira. Mas que é estranho, é. 

NÉLSON
Foi sugestão de Dona Dionéia. Disse que você era uma pessoa especial. Que merecia toda força. 

ÁUREA
Meu Deus, como estamos. Rosa! Meu conceito está subindo ii na capital! Dionéia foi dizer para o rapaz aqui que eu sou especial! 

NÉLSON
Para mim não é tanto sacrifício assim. Uma, porque são só quarenta e cinco minutos até aqui. Outra, porque preciso exercitar a voz. Além disso eu quero ajudar no que for… 

ÁUREA
Por que? 

NÉLSON
Por que o que? 

ÁUREA
Por que precisa exercitar a voz? 

NÉLSON
Sou repórter jornalístico de uma rádio. 

ÁUREA
Jura? Que interessante. Será que ela pega aqui? 

NÉLSON
Acho que sim. 

ÁUREA
Engraçado… A sua voz… 

NÉLSON
O que tem ela? 

ÁUREA
Parece com a voz de alguém… Desde que você deu ‘boa tarde” que eu fiquei cismada. Quem será, meu Deus? 

NÉLSON
Olhe, eu trouxe uma peça de teatro, também, de Moliére… 

ÁUREA
Por que mudou de assunto? 

Mais uma vez, Nelson fica sem resposta.

ÁUREA
Falta de ducação, ouviu? Você não esperou que eu me lembrasse quem é que tem a voz parecida com a sua. (Muda a expressão. Exclama vitoriosa) Lembrei! (Cai em si, entristecendo-se de súbito) Lembrei… Eu fui casada, sabia? Claro que não sabia. Nem podia saber… Qual foi mesmo a peça de teatro que você trouxe? NÉLSON
A peça era uma comédia… “O Tartufo”. Felizmente ela não desconfiou de nada.

SAIBA MAIS SOBRE “PARA SEMPRE NÃO EXISTE”

“Para sempre não existe” é o que restou de uma peça maior que nunca conclui, escrita em 1989, na época em que eu estava estudando no Curso de Formação do Ator da UFPE. Naqueles anos, ao mesmo tempo em que eu me dava conta de que muitos dos meus parentes guardavam surpreendentes segredos familiares, chegaram às minhas mãos vários textos de Nélson Rodrigues, em particular “Vestido de Noiva”, “Dorotéia” e “Álbum de família”. Instigado pelo prazer de criar peças, me deixei contaminar pela atmosfera das peças rodrigueanas e comecei a escrever a história de três mulheres. Elas criavam um rapaz chamado Nélson que trabalhava como repórter jornalístico em um grande jornal. As três irmãs guardavam vários segredos umas das outras e usavam aquele conhecimento como um jogo doentio. Somente a presença de Nélson parecia acalmar aquela situação. Porém, por alguma razão que nunca descobri, a motivação para concluir o texto foi minguando até se esgotar. A peça ficou esquecida por algum tempo. Meses depois, quando a reencontrei e reli, vi que havia ali um recorte interessante que tinha vida própria. E assim foi.

Essa peça estreou em 18 de novembro de 1992, no Teatro Ruy Limeira Rosal (Caruaru – PE), como primeiro ato do espetáculo “SelfTrap” (armadilha de si mesmo), dirigido por mim e produzido pelo Grupo Cênico Arteatro e TTTRês Produções Artísticas. “SelfTrap” também foi apresentado em Garanhuns e Arcoverde, fazendo temporada em Recife (20 de março a 06 de junho de 1993). Em João Pessoa participou do III Festival Nacional de Teatro e Dança (22/01/1993), no qual recebeu o troféu de Melhor Produção para a atriz e produtora Méri Lins. 

A versão integral desta peça
estará disponível aqui mesmo, a partir de 05 de outubro de 2026,
quando informaremos a(s) forma(s) de aquisição do texto.

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