Onde fica a praça Camerino?

Eu sei que o mundo mudou muito,
mas, na minha opinião,
uma menina na idade dela
não deveria andar sozinha por aí.

GUARDA

Conjunto de nove cenas dramáticas, todas situadas no espaço de uma praça pública.

RESUMO
Fragmentos de vidas captados na Praça Camerino, no centro de Aracaju, capital do Estado de Sergipe. Naquele grande quadrilátero arborizado, cercado de vias movimentadas por todos os lados, várias histórias se entrecruzam, delineando um cotidiano não tão banal quanto a ideia de cotidianidade pode sugerir.

COLABORADORES

Aimée Freitas Resende
(“Moça sentada no banco”)

Alaí Carvalho
(“O carro da praça”)

Elaine Bárbara Carvalho, Carlos Ferrera, Cecília, Cláudia Maysa Felix Santos, Euler Lopes Teles
(“Plantas no jardim”)

Gabriel Libório
(“Plantas no jardim”)

Yandra Moraes, Irís Cristina
(“O carro da praça”)

John, Kleber Lourenço, Leandro Santolli, Lidhiane Lima, Lindenberg Monteiro
(“Aquele que vê”)

Luana, Marcelo Souza
(“A espera do ônibus”)

Maria Lúcia Matias
(“A espera do ônibus”), P.H.

PERSONAGENS (por cena)
Introdução: Mulheres 1 e 2, Crianças 1 e 2, Homens 1 a 4, Moça, Rapazes 1 a 3.
Mãe e Filha: Menino, Mulher, Guarda, Menina.
O carro de praça: Rapaz, Moça.
Moça sentada no banco: Menino, Moça.
Plantas no jardim I: Jardineiro, Homem.
Dois guardas: Guardas 1 e 2.
Plantas no jardim II: Jardineiro, Mulher.
A espera do ônibus: Mulher, Menino.
Aquele que vê: Bisneto.

LEIA UMA CENA DA PEÇA

Cena II – Mãe e Filha

Mulher senta num banco da praça. A princípio parece apenas contemplar o lugar. Logo começa a checar o relógio. Depois dá um telefonema, que ninguém atende. Começa a se inquietar. Um menino passa com uma caixa de papelão.

MENINO
Quer comprar “batom”, moça?

MULHER
O que?

MENINO
Chocolate.

MULHER
Ah, não quero, obrigada.

MENINO
Tem do branco e tem do preto.

MULHER
Não, obrigada.

MENINO
Compre, moça. É só um real.

MULHER
Eu disse não, que coisa.

O Menino sai. Mulher vai até um guarda perto dali.

MULHER
Seu guarda, por acaso o senhor viu por aqui uma garota de uns doze anos, magra, mais ou menos dessa altura? 

GUARDA
Garota?

MULHER
Sim. Com os cabelos pretos, aqui no ombro, ondulados?

GUARDA
Tem uma menina assim que sempre vejo por aqui.

MULHER
Sempre?

GUARDA
É. Mas hoje ela não apareceu. A senhora é parente dela?

MULHER
Sou mãe dela.

GUARDA
Tá… Desculpe dizer, mas não parece muito, não.

MULHER
O pai dela é de um outro país.

GUARDA
Ah.

MULHER
Marquei com ela nesta praça. Já devia ter chegado. O celular não atende. Estou preocupada.

GUARDA
Ela está só?

MULHER
Acho que sim.

GUARDA
Eu sei que o mundo mudou muito, mas, na minha opinião, uma menina na idade dela não devia andar sozinha por aí.

Mulher olha para o guarda, séria.

MULHER
O senhor tem filhos, seu guarda?

GUARDA
Quatro.

MULHER
Cuide deles.

Mulher volta a sentar no banco.

GUARDA
Eu cuido. Eu cuido.

O guarda afasta-se, mas fica nas proximidades. A Menina chega e senta no banco com a Mulher.

MENINA
Oi. 

MULHER
Oi, coisa nenhuma. “Desculpe a demora”, não é?

MENINA
Desculpe, então. Um menino roubou meu celular. Corri atrás. Não consegui alcançar.

MULHER
E o dinheiro?

MENINA
Depositei naquela conta como você pediu. (Entrega um papel à Mulher) Tome.

MULHER
(Lendo o comprovante) Mas, está faltando. Não era só isso. Você me prometeu. Cadê o resto do dinheiro?

GUARDA
(Aproximando-se) Posso ajudar?

MENINA
Oi, Sebastião. Tudo bem?

GUARDA
Eu que pergunto.

MULHER
Está tudo ótimo, senhor. (Levantando-se, fala para a Menina) Venha. Vamos embora.

GUARDA
(Para a Mulher, com um sorriso cínico) Que bom que a senhora encontrou sua filha.

MULHER
Pois é.

MENINA
Tchau, Sebastião.

GUARDA
Tchau, Carol.

Saem. O guarda fica sério e sai de cena.

LEIA MAIS SOBRE “ONDE FICA A PRAÇA CAMERINO?

Reunidas com o título de “Onde fica a Praça Camerino?”, as nove cenas desta peça foram apresentadas em récita única no dia 16 de maio de 2009 na Casa Rua da Cultura, com os atores e atrizes participantes do Atelier de Processos de Encenação (de 02 a 17 de maio de 2009) promovido pelo VIII Festival do Teatro Brasileiro – Cena Pernambucana – Etapa Sergipe. Todas essas cenas foram criados numa Oficina de Dramaturgia ministrada por Luiz Felipe Botelho (02 e 03 de maio de 2009), integrada ao referido Atelier de Encenação. Botelho ministrou a oficina adaptando a técnica que utilizou com os alunos do curso de Teatro do SESC-PE no processo de criação da peça “O segredo da Arca de Trancoso”, em 1996.

Uma coincidência interessante – e que acabou inspirando o tema central da oficina e do título do trabalho – foi a localização do espaço onde aconteceram as aulas do Atelier de Encenação: a Praça Camerino. Dois anos antes, Botelho esteve em Aracaju com o pai dele – que também se chamava Camerino – à procura daquela mesma praça. Para surpresa de ambos, quase ninguém tinha ouvido falar desse lugar, apesar do nome da praça ser uma homenagem a Francisco Camerino de Azevedo, um sergipano que morreu aos 25 anos, após uma jornada de feitos heroicos na Guerra do Paraguai. Por entender que seria mais produtivo valorizar a percepção de cada participante sobre o momento vivo e presente de um centro urbano, Botelho preferiu evitar desafios adicionais decorrentes da abordagem de um tema histórico. Propôs que a oficina usasse como matéria prima os conteúdos captados pela escuta das vozes da praça e pela observação visual das ações dos transeuntes. Desse modo, os participantes se lançaram a registrar personagens e pedaços de histórias únicas que, o tempo todo, emergem e se ocultam sob a agitação de uma grande cidade.

O material recolhido/produzido/criado por cada participante da oficina foi apresentado e discutido individualmente e em grupo, ficando ao encargo de Luiz Felipe Botelho adaptar dramaturgicamente os resultados, ao ponto de poderem ser levados à cena. Embora cada cena tenha vida própria, é na união de todas elas que o trabalho ganha múltiplas camadas de significado, na medida em que materializam dimensões distintas e interagentes da vida de um mesmo espaço público, no centro de uma capital.

A versão integral desta peça
estará disponível aqui mesmo, a partir de 05 de outubro de 2026,
quando informaremos a(s) forma(s) de aquisição do texto.

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